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Urubu alimenta familia no Sertão - O
cuidado de Deus não é fábula!
5/12/2005
Há
algumas histórias bíblicas com as quais
temos uma relação ambígua: gostamos
delas e delas tiramos constantes
ensinamentos. Mas a verdade é que
achamos meio difícil acreditar nessas
histórias, pois caem muito melhor para
as crianças...
Ver os olhos dos pequenos se arregalando
e a adrenalina subindo, num salivar de
interesse e total envolvimento, nos
fascina e encanta. “E então veio um
grande peixe...”, narramos, e o grito
deles deixa transparecer todo o seu
cativamento. Nós, os adultos, é que
contamos a história; mas acreditar nela
do mesmo jeito, soltando os mesmos
gritos de empolgação, aí já é diferente
e bem mais difícil. Dessa ponta de
ceticismo e raiz de dúvida, nem nós, os
pregadores da Palavra, estamos livres.
Penso na minha própria experiência
ministerial e nas vezes em que preguei
sem sair muito convencido do que disse.
“E, se Nínive se converteu, qualquer das
nossas cidades pode se converter!”,
declarava com eloqüência. Mas, quando as
pessoas iam embora e eu, sozinho, descia
as escadarias da igreja e retornava à
minha casa, perguntava a mim mesmo se
acreditava no que dissera. E aí me
deparava com todo o meu ceticismo e
minha dificuldade de crer.
Uma das dificuldades que temos com as
histórias bíblicas é que elas refletem
uma realidade muito diferente da nossa,
com a qual temos dificuldade de nos
relacionar. Acabam sendo coisa de outro
tempo e de outro mundo. Tenho visto que
um dos segredos é tentar trazer o relato
bíblico para dentro do nosso mundo. Aí
vejo que ele cabe muito bem na nossa
realidade e vai tomando formas que
constroem uma bonita ponte entre aquela
realidade e a nossa; e o nosso ceticismo
vai sendo vencido pela realidade do amor
e do cuidado de Deus. E estes, por sua
vez, vão tomando forma e assumindo
diferentes sabores, cheiros e
expressões, sempre a nos dizer que Deus
é o mesmo ontem, hoje e sempre (Hb 13.8)
e cuida de nós ontem, hoje e sempre.
Vamos ver isso mais de perto?
O cuidado de Deus assume muitas formas
Cada vez mais eu me vejo envolto pelo
cuidado de Deus e falando desse cuidado
que expressa a natureza divina e nos
cativa com seu amor. Esse cuidado assume
muitas e diferentes formas e se expressa
nas pequenas coisas da vida e no nosso
cotidiano. Mas às vezes ele assume uma
forma radical e dramática.
Quem já não ouviu falar da história de
Elias e de como Deus o sustentou à beira
de um riacho remoto, à base de pão e
carne? Cardápio simples e suficiente,
mas servido de um jeito estranho e nada
apetitoso: “disk-corvo”! O problema é o
corvo que, sob orientação direta de
Deus, visita o profeta duas vezes ao
dia: “Depois disso a palavra do Senhor
veio a Elias: ‘Saia daqui, vá para o
leste e esconda-se perto do riacho de
Querite, a leste do Jordão. Você beberá
do riacho, e dei ordem aos corvos para o
alimentarem lá.’ E ele fez o que o
Senhor lhe tinha dito. Foi para o riacho
de Querite, a leste do Jordão, e ficou
lá. Os corvos lhe traziam pão e carne de
manhã e de tarde, e ele bebia água do
riacho” (1 Rs 17.2-6).
Falemos cá entre adultos: nós celebramos
o sustento que Deus dá ao profeta, mas
seu jeito de fazê-lo não desce com tanta
facilidade na garganta da nossa
credibilidade. Seja porque não nos
agrada a idéia de um corvo chegar
carregando nosso almoço num bico que
bicou sei lá onde, seja porque a nossa
verve racional começa a fazer perguntas
sobre este episódio. Então, preferimos
contá-lo a um grupo de crianças crédulas
e fascinar-nos com o seu cativamento!
Trazendo o "corvo" para mais perto
Certa vez, visitando os pais da Silêda
no Maranhão, eu compartilhei com eles a
minha estranheza acerca do corvo levando
carne ao profeta. “Que tipo de carne?”,
comentei.
Então a mãe dela, mulher de histórias e
parábolas, falou: “Pois é... papai
sempre nos contava daquela vez em que a
família dele foi alimentada por um
urubu!”
E contou uma experiência ocorrida lá
pelo final do século 19, quando a
família do seu pai vivia no interior do
Ceará. A vida era difícil e atormentada.
Às vezes, eles tinham de abandonar a
casa por causa dos bandos de cangaceiros
que tomavam conta de tudo. Eles chegavam
e se instalavam na propriedade, sem dia
marcado para ir embora. Quem não fugia,
morria. E os donos acabavam debandando.
A necessidade constante de fugir já
fizera disso uma empreitada organizada.
Suprimentos e utensílios básicos tinham
de acompanhar a fuga, pois não se sabia
quanto tempo a família inteira
precisaria ficar escondida no mato.
Numa dessas fugas, a permanência no
esconderijo prolongou-se além do
previsto. Os dias passavam e nada de os
bandidos irem embora. Os mantimentos
estavam acabando, o nervosismo
aumentando e todos vivendo a dificuldade
de não saber o que fazer. E chegou o dia
em que só havia feijão para cozinhar.
Era o resto, e era só feijão mesmo. Nem
sal havia!
Era costume na região salgar a carne e
pendurá-la num varal para secar e virar
carne de sol. Volta e meia os varais
eram visitados por famintos urubus. Pois
não é que naquele dia, enquanto o feijão
cozinhava na panela, um bando de urubus
sobrevoou o local e um deles, não
conseguindo mais carregar o toucinho que
havia roubado de algum varal, deixou-o
cair justamente ali! Na pressa do roubo
e sem muito tempo para fazer escolhas,
ele havia agarrado um pedaço maior do
que suas garras podiam transportar.
Cansadas, elas se renderam e o toucinho
despencou exatamente lá onde a família
escondida olhava, ansiosa e faminta,
para o feijão sem tempero!
Foi pura benção e absoluto cuidado de
Deus! O feijão foi salgado e a refeição
enriquecida pelo presente do urubu.
Assim, não apenas Elias foi alimentado
por um corvo. Aqueles rostos ansiosos e
tensos, no indesejado esconderijo, nos
confins do sertão nordestino,
experimentaram o alimento trazido por um
“corvo” como um providencial presente,
tão inesperado e inusitado quanto
necessário.
Dona Lídia me trouxe a história de Elias
para perto. Para a sua própria família,
ainda que para dias que já vão longe.
Mas ela me ajudou a entender que a
história de Elias é coisa de Deus e,
sendo de Deus, é coisa para os nossos
dias. A dificuldade é que muitas vezes
não queremos nem conseguimos ver os
corvos trazendo o nosso toucinho,
expressão do cuidado e do amor de Deus.
Mas que tem toucinho no feijão, isso
tem.
Valdir Steuernagel é pastor luterano,
trabalha com a World Vision
International e com o Centro de Pastoral
e Missão, em Curitiba. É autor de, entre
outros, Para Falar das Flores... e
Outras Crônicas.
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