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SAUDADE DOS CRENTES
13/9/2005
Em
volta, a beleza da natureza de
Paripueira e o som das ondas do mar.
Recosto-me na rede, no alpendre (que os
não-nordestinos insistem em chamar de
terraço), lanço um olhar sobre minha
caminhada religiosa...
Vencendo os preconceitos, aproximei-me
dos “crentes” em meados dos anos 50.
Fiquei surpreso como pessoas bem simples
conheciam profundamente as Sagradas
Escrituras e como o Evangelho, como
“plano de salvação”, era exposto com
clareza e autoridade, o que demandava
uma resposta de compromisso dos
ouvintes. Encantei-me com o clima
fraterno entre os “irmãos”, como família
da fé. A escola dominical me
deslumbrava, quando eu via a Bíblia
sendo aberta e estudada. Passei a
conhecer um novo mundo. Jamais seria o
mesmo. Tornei-me um “crente”.
Em 1960, assisti ao primeiro culto com
Santa Ceia na Igreja Presbiteriana de
Garanhuns, PE, onde imperava uma
atmosfera de solenidade e reverência, um
silêncio respeitoso. Uma música clássica
tocava suavemente; seguia-se uma “ordem
do culto” como roteiro litúrgico. O
pastor vestia um terno preto com
colarinho clerical. As leituras, os
hinos e a música do coral se
harmonizavam, conduzindo-nos a um enlevo
espiritual, numa experiência marcante.
Familiarizei-me com os Salmos e Hinos e
o Cantor Cristão, com suas melodias,
conteúdo teológico e temas apropriados
para cada ocasião. Festas de
aniversário, casamentos (nunca “mistos”)
e, particularmente, funerais
representavam nova experiência de fé,
alegria e irmandade. Todo mundo tinha um
espaço na vida eclesial, o que então eu
aprendi como sendo o “sacerdócio de
todos os crentes”.
E a preocupação com a preparação dos
sermões, com os clássicos “3 pontos”,
que ocupam o centro do culto,
alimentando-nos espiritualmente? Aquele
era um tempo em que se referia a
“grandes pregadores”, pessoas simples,
sóbrias, profundas, conhecedoras da
Palavra, da doutrina e também do
vernáculo (não se usavam “tu” e “você”
misturados, como hoje).
Os protestantes eram minoria num
contexto (já declinante) de
discriminação e, até mesmo, de
perseguição. Isso reforçava o espírito
de corpo, a coesão interna, não somente
dentro das denominações, mas em seu
conjunto, como “o povo evangélico”
(nossa identidade), aspirando maior
aceitação, espaço e respeitabilidade.
Não dava para disfarçar o orgulho pela
pioneira visita do presidente da
República à Catedral Presbiteriana do
Rio de Janeiro, em 1959, ou pelo
Maracanã lotado pelos batistas em l960.
Enfatizava-se a necessidade de
conversão, ou “novo nascimento”, e era
costume ouvir “testemunhos”. O
recém-convertido ficava longos meses na
classe dos “catecúmenos”, aprendendo a
Bíblia, as doutrinas básicas da fé
cristã e as características marcantes de
sua denominação. Essa foi, também, minha
rica experiência de aprendizagem e
amadurecimento antes da minha
confirmação (pública profissão de fé),
em 1963, na Igreja Evangélica Luterana.
As igrejas eram divididas em
organizações (com seus departamentos),
onde se procurava aplicar o ensino à
vida. Entre os jovens, aos sábados, se
promoviam as chamadas festas sociais. Os
pastores, de várias denominações, faziam
intercâmbio de púlpitos, sem temores de
atitudes antiéticas por parte dos
colegas.
O crente brasileiro de então vivia sob a
ideologia de um Destino Manifesto: a
crença de que a presença do
protestantismo entre nós concorreria
para trazer a democracia e o progresso.
A Confederação Evangélica Brasileira (CEB)
tinha legitimidade como órgão
aglutinador da comunidade protestante.
Realizava eventos memoráveis, como a
Conferência do Nordeste, de l962, no
Recife, envolvendo intelectuais
evangélicos e não-evangélicos, sob o
tema “Cristo e o Processo Revolucionário
Brasileiro”. Como esquecer a Semana da
Reforma, que acontecia todos os anos, em
outubro, quando milhares de igrejas, em
todo o país, estudavam, com o mesmo
material, um aspecto ou personagem da
Reforma Protestante do Século 16, o que
contribuía para a consolidação de uma
identidade? Conheciam-se os Sola
Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide, Solus
Christus. Grêmios, sociedades literárias
e publicações contribuíam para o
crescimento não só espiritual, mas
também intelectual dos “crentes”.
Grandes pastores estavam preocupados em
edificar igrejas sólidas para suas
denominações, e não impérios religiosos
para si. Os vínculos eram do tipo:
fiel–igreja–denominação, e não
fiel–pastor. A modalidade de culto
espetáculo, centrado nos pastores
estrelas, era algo inimaginável.
Históricos, primeiro; pentecostais,
depois; éramos todos, acima de tudo,
evangélicos. O fundamentalismo e o
liberalismo chegariam muito depois, de
forma marginal ou periférica, tidos como
estranhos à nossa maneira de ser.
Apesar dos problemas naturais, inerentes
aos seres humanos, posso, com convicção,
afirmar: “Bons tempos aqueles...
Meninos, eu vi!”
Depois... bem... Depois é o que temos e
conhecemos hoje. Do passado pouca coisa
parece ter ficado. Crescemos (talvez,
tenhamos inchado), tragicamente nos
fragmentamos. Do velho e sólido
protestantismo parece nos ter restado
apenas uma vaga memória. Os shows
substituíram a solenidade dos cultos; os
“astros e estrelas”, os estadistas do
reino de Deus; a coreografia, a alma
genuflexa; os gemidos inexprimíveis, os
hinos. Voltamos à cosmovisão opressiva
da Idade Média com as batalhas
espirituais e a teologia da
prosperidade, que, por sua vez, traz de
volta as indulgências. As experiências
tomam o lugar da fé na Providência; a
importação de pacotes estrangeiros, o
lugar da busca de uma construção
nacional. Parece que perdemos o respeito
e a credibilidade. Cada vez com mais
freqüência, nos deslocamos para as
páginas policiais. O neofundamentalismo
bitolante já fez escola, e o liberalismo
pós-moderno, cético e relativista,
vai-se infiltrando, sorrateiro, venenoso
e mortal.
Graças a Deus, há um remanescente fiel.
Nem tudo está perdido, e nos movemos
pela esperança no Senhor da Igreja,
apesar de tudo. Ainda há muitos crentes
no Brasil e, estamos certos, sempre
haverá.
Apenas nostalgia? Apenas saudosismo de
um velho na rede, ou um olhar no passado
buscando forças para viver o melhor do
presente e, ainda, teimosamente,
continuar sonhando com o futuro?
Bons tempos no passado... Bons tempos,
também, no presente e no futuro?
Meninos (e meninas), eu vi... E espero
continuar vendo... Que todo o sério
esforço do passado não tenha sido em
vão!
Com fidelidade à Palavra de Deus e ao
sagrado depósito da fé apostólica, e com
discernimento, é tarefa de todos nós,
enquanto estivermos aqui, enfrentar as
adversidades externas e internas,
procurando tornar o evangelho relevante
à nossa geração, inclusive, até o dia em
que você também estiver na rede...
Robson Cavalcanti
Fonte Ultimato
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