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Recado aos evangélicos brasileiros que
votaram no NÃO
16/2/2006
A partir de agora, os evangélicos que
votaram no Não deveriam se sentir
constrangidos:
1. De citarem, em qualquer
circunstância, os conceitos pacifistas
de Jesus
Mateus 5.9: “Bem-aventurados os
pacificadores, pois serão chamados
filhos de Deus”.
Mateus 26.52: “Guarde a espada! Pois
todos os que empunham a espada, pela
espada morrerão”.
Entenda-se por “pacifismo” a ideologia,
ou o sistema de crença, que sustenta a
imoralidade de machucar ou matar alguém,
para conseguir o que se quer. Os
pacifistas acreditam que bons fins não
podem justificar a morte. Igualmente,
seu entendimento de causa e efeito é de
que bons fins crescem de bons meios,
assim como um bom poema é composto de
boas palavras. Os pacifistas acreditam
que tanto a moralidade quanto o bom
senso requerem que “vivamos as mudanças
que queremos ver”.
Lucas 6.29: “Se alguém lhe bater numa
face, ofereça-lhe também a outra. Se
alguém lhe tirar a capa, não o impeça de
tirar-lhe a túnica”.
2. De afirmarem que crêem na teologia
paulina de que o testemunho cristão não
se molda à cultura de violência do mundo
Romanos 12.21: “Não se deixem vencer
pelo mal, mas vençam o mal com o bem”.
3. De alardearem que admiram os
posicionamentos de Gandhi ou Martin
Luther King
Gandhi: “O que se obtém com violência,
só pode ser mantido com violência”.
Martin Luther King: “O homem nasceu na
barbárie, quando matar seu semelhante
era uma condição normal de sua
existência. Nasceu-lhe uma consciência.
Agora é chegado o dia em que a violência
contra um ser humano deve tornar-se tão
horrorosa como comer a sua carne.”
4. De se posicionarem contra o argumento
das mulheres que defendem o aborto
alegando que o governo não tem o direito
de legislar sobre seu corpo
Milhões de cristãos evangélicos
defenderam o direito de se portar armas
usando exatamente este argumento: seus
direitos constitucionais seriam
invadidos pelo governo. Ouviu-se
repetidamente que os evangélicos não
apoiavam o uso de armas de fogo, porém
defendiam o “direito” dos outros
cidadãos de comprarem pistolas,
revólveres e rifles.
5. De orarem pedindo proteção divina
Não há necessidade de se buscar proteção
divina quando se podem usar armas. É
esquisito sair de casa com um trinta e
oito na cintura e ainda assim citar
textos como o Salmo 91: “Aquele que
habita no abrigo do Altíssimo e descansa
à sombra do Todo-poderoso pode dizer ao
Senhor: ‘Tu és o meu refúgio e a minha
fortaleza, o meu Deus, em quem confio’”.
6. De criticarem os gastos militares
globais
As nações mais abastadas do planeta
conseguiram organizar uma instituição
multilateral para promover o
desenvolvimento econômico. A Organização
para a Cooperação e o Desenvolvimento
Econômico reúne 30 países ricos. De
acordo com o Relatório de
Desenvolvimento Humano 2005, para cada
dólar destinado à cooperação, cada um
dos trinta países desembolsa 10 dólares
para atividades militares.
Os evangélicos não deveriam se
horrorizar com o fato de no ano 2000
terem sido gastos em armamentos 524
bilhões de dólares, e em 2003, pós-Bin
Laden, 642 bilhões de dólares (um
aumento de 25%). Agora eles precisam
concordar com o fato de que em 2003 os
30 países membros da OCDE destinaram à
cooperação com as nações mais pobres
apenas 69 bilhões de dólares, ou seja,
10% do que se aplicou em armas.
Se alguém deve ter o direito de gastar
alguns milhares de reais para comprar
uma pistola, o caso dos Estados Unidos
não deveria horrorizar — eles gastam 25%
de seu orçamento com atividades bélicas
e apenas 1% com a ajuda internacional.
A lógica armamentista precisará ser
respeitada por aqueles que votaram no
Não. Para eles, não haverá nada de
errado com a pouca solidariedade
mundial. Toda a ajuda que durante um ano
tais países dão ao combate à aids
representa apenas três dias de gastos
com armas. Convém lembrar que a aids
mata cerca de 3 milhões de pessoas por
ano e a fome, 5 milhões de crianças por
ano. Genocídio. A própria ONU pratica o
que critica. Em 2005, ela está gastando
mais com a manutenção de seus capacetes
azuis em zonas de conflito do que toda a
ajuda que os países ricos darão à
África.
7. De afirmarem que são cidadãos de
outro reino
O reino de Jesus não é deste mundo nem
as armas de sua milícia, carnais. Os
cristãos deveriam se sentir responsáveis
por disseminar o que promove a paz, e
nunca o que gera morte.
João 18.36: “O meu Reino não é deste
mundo. Se fosse, os meus servos lutariam
para impedir que os judeus me
prendessem. Mas agora o meu Reino não é
daqui”.
2 Coríntios 10.4: “As armas com as quais
lutamos não são humanas; ao contrário,
são poderosas em Deus para destruir
fortalezas”.
Talvez o referendo sobre o comércio de
armas não fosse suficiente para resolver
os impasses gerados pela violência
urbana que se instalou no Brasil. Ele
pode até ter sido convocado para
camuflar a falta de uma política de
segurança pública. Se o Sim fosse
aprovado, talvez as cidades continuassem
perigosíssimas.
Mas ele serviu o bastante para se
perceber o quanto os evangélicos ainda
precisam amadurecer em cidadania e a
dificuldade em aplicar no cotidiano
princípios em que imaginam acreditar,
bem como que precisam aprender que o seu
papel é caminhar na contracultura.
Ricardo Gondim - Revista Ultimato
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