PROTESTANTISMO E DEMOCRACIA
13/9/2005

Protestantes protestam, ou pelo menos deveriam fazê-lo para honrarem a nomenclatura. Numa democracia o “demo/povo” expressa sua vontade, fala, opina, vota, enfim, protesta. Os membros e construtores de uma democracia são, por natureza e ofício, pro-tes-tan-tes; ou seja, reivindicadores. É de protesto em protesto que se constrói uma democracia; uma democracia não existe onde não se pode exprimir desejos e vontades, fazendo um protesto. Portanto, protestantismo e democracia é uma combinação perfeita. Ou pelo menos deveria ser.

Em 31 de outubro de 1517, o monge agostiniano Martinho Lutero fixa na porta da Catedral de Wittenberg um texto com 95 teses contra a figura do papa e a venda das indulgências católicas. Era um protesto puramente teológico, mas teve conseqüências econômicas, sociais e políticas. O termo protestante nasce em 1521, na Dieta de Worms, quando o rei Carlos V reafirma sua fidelidade estatal ao Vaticano por necessidade política. A turma do Lutero, mais por necessidade econômica que teológica, não gostou e protestou. Nasceram assim os “protestantes”. Um grupo de gente em estado de protesto contra o poder religioso, contra o poder do Estado, contra o status, a opressão, o latifúndio. Aliás, os camponeses anabatistas, defensores de uma democracia radical, acreditaram tanto nesta teoria luterana que quiseram pô-la em prática nos latifúndios, mas havia alguns príncipes alemãs no meio do caminho sendo abençoados por Lutero.

Uma das marcas da Reforma Protestante é a teoria do “sacerdócio universal”. Essa propalada teologia dizia que cada um, independentemente de classe social, clerical, política ou econômica, pode e deve ter acesso direto a Deus. Ora, se o acesso é dado a Deus, por que não também ter acesso ao voto, à decisão, ao protesto, à democracia?

Não foi coincidência, portanto, que este modelo religioso fosse o melhor companheiro para a implantação da democracia moderna: valorização individual, leitura bíblica sem tutela, autonomia dos Estados nacionais, liberdade de consciência, exercício do voto e da fala. Quinhentos anos depois...

De “protestantes a conformantes”. Sobre o quê, ou contra o quê os protestantes protestam atualmente? O mesmo grupo que pegou em armas em favor do estabelecimento do Estado nacional e contra as investidas do imperialismo estrangeiro foi vanguarda na luta pelo fim do latifúndio, incorporou absolutamente a luta pela democracia em diferentes épocas e lugares, hoje se notabiliza por qual luta e frente? Ao menos no Brasil, o protestantismo, com raras exceções, está bem acomodado. Parece tranqüilo e feliz, desfrutando dos “benefícios” do presente e das glórias do passado. Não protesta sobre nada e contra nada. Nem contra nem a favor, muito antes pelo contrário.

O protestantismo brasileiro tem cerca de 200 anos e, para efeitos didáticos, pode ser dividido em quatro períodos.

Período étnico: é a religião como expressão étnica britânica e alemã, a religião dos colonos. Chega, oficialmente em 1810, como subproduto do acordo de Portugal com Inglaterra. Dom João VI precisava de proteção contra Napoleão e desejava construir estradas de ferro. A Inglaterra, por sua vez, precisa de “portos de nações amigas”. Os súditos protestantes da rainha - os “acatólicos” - são recebidos, mas não podem fazer proselitismo, pois esta nação é católica por natureza. O protestantismo se acomoda nas colônias étnicas ou salas dos consulados estrangeiros. Se comercialmente o acordo andava bem, por que protestar?

Protestantismo de missão. É a chegada das denominações tradicionais. Notadamente de víeis norte-americano, com perfil escolarizado da classe média e raça branca. São “os civilizados”, “progressistas”, de “raça pura”, em terra de mulatos, analfabetos e atrasados. Não estavam aqui para protestar contra nada, mas para “melhorar” esta nação com o evangelho e o progresso. Coisas que, aliás, naquela época eram sinônimos. Aliados da maçonaria, por causa da luta republicana, viram a transformação do Império em República como uma vitória da liberdade religiosa. Aqui já temos uma das marcas do protestantismo brasileiro: a luta pela liberdade. É uma liberdade sectária e classista. Quer ter a liberdade de pregar o evangelho em qualquer local e tempo (com o som nas alturas), mas a liberdade dos outros grupos deve ser monitora pelo Governo.

O terceiro momento é o protestantismo pentecostal. Este teologicamente nunca quis, nem quer, nem pode mudar o mundo, mas deseja sair dele. De preferência antes de morrer, pois e já vive “treinando” para viver noutro mundo estando ainda neste. O lema do FSM não diz que “outro mundo é possível”? Pois os pentecostais já executam isto há muito tempo. Esse tipo de protestantismo nasce marginal e permanece assim durante décadas. É uma religião que nasceu entre os negros americanos (desnecessário lembrar que são pobres) e é liderada, em seus primeiros momentos, por ex-escravos e mulheres. É perseguida da mesma forma que as religiões afro, por causa do racismo, do sexismo muito mais que por razões teológicas.

O pentecostalismo se torna um “refúgio das massas” (D`Epinay). É um local onde pobre se sente bem porque está entre iguais. E, nesse espaço sagrado, todos podem falar, cantar, pregar e orar. Protestar? Por que e pra quê se Deus quer assim e o mundo está perto de acabar? Uma das causas fundamentais desta postura é sua escatologia, ou teologia sobre o final do mundo. Esse movimento nasce e cresce junto as duas grandes guerras mundiais, onde há uma exacerbação do final dos tempos. É o período do surgimento da guerra atômica e uso de aviões no sistema bélico.

Atualmente temos o protestantismo neopentecostal. Não é o maior grupo, mas é o que tem maior visibilidade. Se os grupos anteriores tiveram dificuldades na implementação da natureza protestante, este muito mais. Dentre outras razões, porque este é o grupo da ascensão social e, em tese, de melhor poder aquisitivo. Se chegou a ocupar sua posição atual com este modelo econômico e político é porque o mesmo lhe foi benéfico. Sendo assim, qual mudança se projeta? Nenhuma. Ricos (muitos ainda não, mas confiantes na prosperidade futura) e famosos, todos parecem candidatos à capa da revista Caras, seguindo este modelito ideal. Muito dinheiro, muito progresso, muito capitalismo. E um pouquinho de sal grosso para temperar.

Qualquer alteração de rota só será bem vista se, a priori, for conveniente ao grupo. Se a nossa liberdade (tanto religiosa quanto econômica) estiver bem firme e a liberdade (principalmente a sexual) dos demais grupos estiver bem disciplinada, então é este o melhor dos mundos. Não é preciso protesto nem mudança. Democracia só o suficiente para não virar bagunça. No mais, tudo deve funcionar bem para a implantação do Reino de Deus que, coincidentemente, é universal.

Protestante não protesta, prega; não reivindica, ora; não faz greve de fome, jejua; não distribui panfleto, evangeliza; não faz passeata, marcha para Jesus. Até vota, mas nos “indicados” por Deus que, coincidentemente, são afilhados do pastor.
 

Gedeon Alencar - Fonte: Inconformados

 

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