|
Palestra CNE 2 - Socorro! Nos Enganaram
28/8/2006
Sertão
Um registro que compromete
No sertão do Nordeste ainda continuamos
com milhares de sítios e povoados sem
presença evangélica alguma. Visitamos,
no Vale do Piancó centenas de famílias,
em sua zona rural que nunca haviam
recebidos a visitas de crentes em suas
casas. Apenas 0,03% das pessoas que
habitam a zona rural, declaram-se
evangélicos.
Temos alguns exemplos em nossos
trabalhos de impactos evangelisticos,
que ilustram bem essa realidade.
Em Caririaçu, no impacto de julho
passado, na zona rural uma pessoa falou
que já ouviu falar de Deus, mas esse tal
de Jesus, não sabe quem é não, fato
semelhante ocorreu na serra do Morais em
Araripina - PE, uma irmã perguntou a uma
senhora se ela conhecia também a Jesus.
A qual respondeu: “conheço não moça, e
olhe, num mora aqui não, se morasse eu
sabia, todo mundo se conhece por essas
bandas”.
Não são muitos os casos de
desconhecimento do nome de Jesus, mas a
ignorância do plano de salvação, através
dEle é quase que total.
Deus, com certeza, não mede a eficiência
de uma igreja pelo seu numero de fieis,
mas pela prioridade que está dando aos
não alcançados.
A proposta nessa noite é de testemunho e
por isso começo falando de mim
diretamente.
Expressões como engajamento político,
preocupação com inclusão e injustiça
social dentre outras, é perfeitamente
normal para mim, que convivi nessa
realidade desde a adolescência de uma
forma ativa, participativa.
Lembro do crepúsculo da ditadura com
Geisel, do inicio da abertura. Achei
emocionante a volta dos exilados.
Lembro de um PMDB esperançoso e depois
vitorioso nas eleições de 82, (menos no
nordeste, (PDS, partido do nordeste), de
um PT ainda embrionário. Participei do
Diretas Já! Também do Tancredo Já! Sou
testemunha do Sarney Lá.
De Milton Nascimento cantando
desiludido: o nosso sonho se derreteu
como um sorvete ao sol.
Nesse contexto me converti.
Nem meu engajamento sócio político nem
tampouco a minha posição de classe
média, preenchia o meu vazio
existencial-espiritual. Depois da
conversão passei a fazer parte da
Assembléia de Deus.
Embora recolhido, tolhido: um novo
convertido, orientado a não votar em
candidatos do demônio. Não resisti,
votei em Lula em 89.
Vi a queda do Collor, vi também, nessa
época, com meu ingresso no seminário,
meu lado político social ser
redespertado sem conflitos de
consciência.
Pulando etapas
Fui para o sertão da Paraíba a 6 anos
atrás, cidade de Itaporanga
Assumi com Sueli, minha esposa, o
Seminário Sertanejo da Juvep.
Juvep que trabalha com o sertão desde o
inicio dos anos 80
E no sertão, com bases de treinamento a
partir do final dos anos 90.
Desde o inicio procuramos manter uma
neutralidade denominacional, na medida
do possível. Neutralidade fundamental
para a proximidade.
Não somos ameaça, pois não competimos,
não representamos mais uma denominação.
A cultura, anticristã, de competição
dominante entre os líderes evangélicos é
uma barreira aparentemente
intransponível que dificulta com muita
força a unidade entre as igrejas
evangélicas.
Lá no seminário de Itaporanga, Apesar de
hoje termos o bacharel em teologia, o
curso mais importante é o básico. Nele
Líderes analfabetas podem estudar.
É verdade que sempre colocamos como
condição para eles, o ser alfabetizado
ao mesmo tempo.
Descobrimos com a comunidade, na
pratica, que a maior pertinência da
escola não era a sala de aula, mas a
conversa na informalidade, a nossa
disponibilidade em fazer visitas aos
líderes da região.
Percebemos que a atenção personalizada
dada àqueles que nos procura, valia
muito. Vimos e vemos ainda, vários
cabras machos, obreiros de igrejas no
sertão se derramarem em lágrimas num
escape vital para a sua estrutura
emocional, quando envolvidos em abraços
de solidariedade e carinho.
Passamos a chamar isso de Teologia do
abraço. Um par de ouvidos para ouvir,
dois olhos pra prestar atenção e dois
braços para abraçar vale mais que mil
palavras.
Não se influencia nem se é influenciado
sem sentir o hálito, a catinga de sovaco
um do outro.
Homens e mulheres afetados de forma
grave em sua estrutura de alma sem
poderem, compartilhar suas angustias,
aflições, dentre outras carências. Ou
por não haver pastoreio de líderes na
sua denominação ou porque o colega de
ministério da mesma cidade é um
competidor, portanto não confiável.
Um testemunho emocionante é o de um
militar, derramando-se em lagrimas na
praça pública, bradando: “O que será de
mim, ninguém me escuta, ninguém me
apóia, todos me vêem como uma ameaça.
Querem me matar espiritualmente e
ministerialmente”. E continuou: “Pastor
Pedro não vá embora. Eu preciso de
alguém que me escute sem me condenar,
sem me cobrar resultados. O que é que
vai ser de mim!?”
Uma reação desesperada de alguém que
encontrou em nós atenção e respeito.
Ele,o militar antes da conversão fazia
parte da banda podre da policia. Foi
instrumento de repressão contra invasões
da feira livre de Itaporanga por
agricultores esfaimados na metade da
década de 90. A sua suplica, parece que
adiou a nossa saída daquela área por
tempo indeterminado.
Um desabafo
Imagino que estou no meio de minha
família nesse momento e que há uma
irmandade suficiente para poder
compartilhar algumas coisas:
• Irmãos é muito difícil cumprir a
tarefa de expansão do reino, isso
envolve vidas alcançadas. Vidas
alcançadas valem muito e são cobiçadas
por forças malignas com muita
intensidade.
• O processo de discipulado, por
décadas, equivocados, distorcidos pariu
uma geração superficial, reféns de
resultados imediatos.
• A carnalidade da liderança a qual
estamos inserido (não me excluo), é no
mínimo, comprometedora. Se não houver
uma intervenção miraculosa do Espírito
Santo continuaremos a expandir, aos
trancos e barrancos uma igreja
franksteniana, uma aberração inofensiva
à organização dos anticristos.
• Somos herdeiros totalmente
influenciados pelas igrejas dos grandes
centros como Recife, Rio, São Paulo.
Esses grandes centros buscam as
variantes teológicas dos paises
exportadores de conhecimentos cientifico
e tecnológico. Quero lembra aos que me
escutam nesse momento que a Teologia
cristã bíblica surgiu na periferia, na
pobreza, na contra cultura, naquilo que
sobrevivia a margem do dominante. Viva a
Galiléia!
• No sertão o nominalismo é evidente e
em grande percentual. Muitos de nós
líderes somos reféns da necessidade de
números pelos números e fazemos qualquer
negócio por um prosélito de preferência
que ele já esteja pronto pela igreja
concorrente ou que entendamos como
herética, “o diabo é sempre o outro”
• Nossas jovens estão casando grávidas.
O apelo sexual na mídia é mais forte que
o nosso moralismo, às vezes falso,
legalista ou totalmente ausente
• Muitos de nós tem feito um pacto
inconsciente com Satanás: “eu não mexo
com você e você não mexe comigo” e
Satanás concordando afirma: “deixa ele
quieto, ele não incomoda e nas
estatísticas vai constar como mais uma
igreja.”
Nossas fragilidades como líderes
• Muitos de nós não sabemos diferenciar
consumismo, motivados pelos valores
burgueses no qual o ter determina o ser,
do viver com dignidade com o mínimo
indispensável.
• Muito de nós ainda não resolveram seus
problemas sexuais, desvios de
personalidade, traumas, complexos.
• Precisamos de CURA INTERIOR!!!
• Precisamos de educação sexual. Não
sabemos tratar adequadamente os nossos
cônjuges na cama.
• Nós homens temos problemas de
afirmação, aceitação.
• Temos problemas com o poder, não
sabemos lhe dar com ele. Por isso
oprimimos, perseguimos, ferimos
• Sentimos-nos abandonados, precisamos
de fé.
• Sentimos-nos discriminados,
desprezados, impotentes...
• Temos medo do juiz, do promotor,
recebemos a ajuda do prefeito e do
vereador. Leia-se vendemos votos.
Fechamos o curral da igreja para quem dá
mais.
• Vendemos-nos a preço de banana,
• Por outro lado repetimos o coronel,
repetimos o eleitor sem esperança, somos
também gado encurralado por um sistema
que parece natural.
• Socorro, socorro, socorro muito de nós
pede socorro, pede luz, pede saída.
• Na dimensão da esperança coletiva,
como parte da nação que somos, tenho
escutado e discernido pelos semblantes
com a esperança se esvaindo, dizer: LULA
NOS TRAIU! E eu afirmo ABAIXO A
REVOLUÇÃO DOS BICHOS. E olha que nem
passamos pela profecia do livro ‘1984`
de George Orwel.
Reação
• Outros reagem, gritam, brigam, Bradam:
NÃO TEM QUE SER ASSIM, ISSO PODE MUDAR,
CHEGA!!! Eu sou um deles.
• Hoje na microrregião de Itaporanga tem
pastores fiscalizando prefeitos e
vereadores.
• Tem pastores rejeitando compra e venda
de votos e favores em vésperas de
campanha eleitoral.
• Tem nego revendo a abordagem
evangelisticas: Não mais anti-católica,
não mais condenatória, mas libertadora,
amorosa, acolhedora... esperançosa,
cheia e dominada pela graça.
• Temos revisto os conceitos de
sexualidades no casamento e colocados em
pratica de uma forma, digamos, mais
prazerosa. A pornografia, sensualidade e
a promiscuidade tem sido revista. O que
é belo e atratente na luz da Palavra
• Temos valorizado a oração como
fundamental para as conquistas
individuais e ministeriais.
RELACIONAMENTO COM DEUS INTENSO, COMO
CONSEQUENCIA, RELACIONAMENTO COM O
PROXIMO, COM A COMUNIDADE, COM OS
EXCLUIDOS MELHOR .... INTENSO.
• Tem líderes sendo renovado com batismo
no Espírito Santo ou recebendo o poder
do revestimento do Espírito, Não importa
como você chama essa dádiva do Senhor:
Cremos no Poder do Espírito Santo.
Cremos no poder da obra da Cruz, do
sangue de Jesus derramado de sua
ressurreição, sua ascensão, glorificação
e o poder de pentecostes. E isso
repercutindo de forma integral.
• Temos Resgatado a nossa cultura a
nossa cor-raça. Neto, obreiro de Caiana
me disse: Pr. Pedro a minha auto-estima
melhorou quando descobri que cabelo
pixaim não é cabelo ruim já que quem
falou isso é suspeito por ter cabelo
liso e ser o dominante branco europeu.
Ser negro é lindo!
• Meus alunos têm ouvido meus brados
• ENGANARAM-NOS, NOS ENGANARAM, MAS HÁ
UMA ESPERANÇA, JESUS NOS DEU O
PRIVILÉGIO DA DESILUSÃO, MAS AO MESMO
TEMPO COM UMA ALTERNATIVA VIVA E
INDESTRUTIVEL COMPENSADORA: ELE VIVE,
VENCEU A MORTE, VENCEU A MENTIRA, VENCEU
O DIABO.
Acredito na não violência, perdão e um
intenso trabalho de resgate cultural,
numa mobilização cristã assumida,
denunciando de forma profética: Acredito
no poder da oração, do jejum, temos
trabalhado nisso também no sertão.
É isso aí.
Pr.
Pedro Luis
|