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O
menino morreu e os pais choram
13/02/2007
Ira.
Sou pastor de uma comunidade cristã em
São Paulo; lidero uma rede de igrejas
espalhadas pelo Brasil, somando entre 20
e 25 mil pessoas; conduzo um programa de
rádio diário também em São Paulo;
escrevo para duas revistas de circulação
nacional e, porque mantenho um site na
internet, sinto-me membro da novíssima
comunidade dos blogueiros.
Apesar disso, minha capacidade
transformadora é pífia. Minha voz,
semelhante a de milhões de brasileiros,
não representa quase nada; não sou
conhecido das elites, nunca estive na
presença de um presidente da república e
jamais usei um passaporte diplomático.
Partilho do sentimento de impotência que
toma conta dos meus irmãos. Sinto-me
frustrado, revoltado, irado, indignado,
sei lá que expressão usar, com tudo o
que ocorre na minha terra.
Assisti a eleição dos novos presidentes
da Câmara dos Deputados e do Senado com
uma vontade louca de comprar um
megafone, ir para Brasília, e ficar
gritando palavrões em plena praça
pública. Tive impulso de chamar aqueles
políticos arrumadinhos, empertigados
dentro de seus ternos novíssimos,
posando, feito jacus, para fotografias,
com as palavras mais chulas da gíria
portuguesa .
Entendo que o jogo político é
necessário; sei que disputas de poder
acontecem em todas as instituições;
compreendo que "ruim com os deputados,
pior sem eles".
Ninguém precisa me dar aula de
democracia (sou filho de um preso
político na ditadura e sei o horror dos
tiranos), mas, mesmo reconhecendo a
necessidade das instituições, fiquei
vermelho de raiva com a inauguração do
novo Congresso.
Vejo meu país sangrando e os mesmos
chavões sendo repetidos. Sinto que
vivemos em meio a um desdém aviltante.
Ninguém mais se lembra da aluna de uma
universidade do Rio de Janeiro, vítima
de uma bala perdida, e que ficou
tetraplégica; ninguém mais se lembra
daquele senhor que chorava enquanto
desenterravam seu filho de debaixo da
cama de um soldado da Polícia Militar;
ninguém mais se lembra da fotografia de
uma adolescente se prostituindo, sentada
no colo de um velho nojento do Amazonas;
ninguém mais se lembra das mães que
enterraram seus filhos, mortos por falta
de asseio numa Unidade de Tratamento
Intensivo de um hospital público.
Dois dias depois das tragédias, chegam
outros sinistros mais pavorosos e vamos
nos acostumando; de horror em horror
chegaremos no inferno preparado pelos
próprios brasileiros.
Querem saber? Chega...
Para mim chega, já que os evangélicos
degringolaram e hoje a grande maioria
dos freqüentadores dos cultos é composta
de pessoas infantilizadas pela religião;
noto que o movimento do qual já fiz
parte não se importa com a justiça
nacional, não chora com os que choram e
não defende o direito dos mais frágeis.
Eles se reúnem em seus auditórios com
uma única preocupação: acessar o divino,
para se safarem.
Para mim chega, já que vejo a elite
burguesa se locupletando há séculos, sem
que ninguém consiga fazê-la mudar. Ela é
preguiçosa, mesquinha, egoísta e
insensível à miséria que vive do outro
do lado do muro de seus condomínios. A
elite brasileira se preocupa
prioritariamente em blindar seus carros,
freqüentar desfiles de moda breguíssimos
em shoppings centers, freqüentar os
mesmos cabeleireiros badalados e caros
das modelos analfabetas, sair, feito
"papagaio de pirata", nas páginas das
revistas de fofoca e comprar roupas em
Miami. Ela não está nem aí para a
miséria que cresce sem parar.
Para mim chega, já que os intelectuais
nacionais atolaram na irrelevância de
seu esnobismo; trancaram-se em suas
torres de marfim, com textos herméticos
e propostas mirabolantes e inúteis dos
teóricos de direita ou de esquerda.
Imóvel e impotente, tenho vontade de
chutar o mastro central desse grande
circo de lona rasgada, chamado Brasil.
Não passamos de um povinho sem sangue
nos olhos, uma nação sem brios.
Faltam poucos dias para o país parar de
novo para ver as escolas de samba,
patrocinadas pelo tráfico, desfilarem a
nudez das mulheres mais deslumbrantes
que nossa raça produziu.
Os poucos gringos com uma libido maior
que o medo de morrer, vão babar. E nós,
sentaremos em nossas poltronas por
quatro dias, embriagados de cerveja e
sexo esqueceremos que já perdemos nossa
alma.
Morreu um menino e estou com asco dos
brasileiros que elegeram o Clodovil, o
Maluf, o Genoíno, o Palocci, o Collor, o
Sarney e toda aquela farsa chamada de
Congresso Nacional. Sinto náuseas e o
meu inferno são os próprios brasileiros.
Morreu um menino e não posso dormir sem
antes dizer que, se pudesse, diria aos
meus patrícios que a nossa perversidade
está transbordando a medida da ira
divina.
Morreu um menino, mas o pior ainda está
por vir.
Morrerão muitos outros e continuarão as
mesas redondas de idiotas discutindo as
fofocas do futebol.
Morrerão muitos outros e a Daslu
continuará vendendo calças jeans de 2
mil dólares.
Morrerão muitos outros e alguns poucos
continuarão tomando vinho de 7 mil
dólares em banquetes faustosos.
Morrerão muitos outros e os pastores
continuarão prometendo abrir portas de
emprego para quem der dinheiro em seus
cultos.
Cansei do deboche e não sei o que fazer.
Estou revoltado com o cinismo e não sei
para onde me voltar.
Antes que esqueça: o nome do menino era
João Hélio e seus pais ainda estão
chorando muito...
Soli Deo Gloria
Ricardo Gondim
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