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Olhe o menino
29/8/2006
Precisamos entender o que significa
receber Deus nas crianças
Jesus e os discípulos chegaram à cidade
de Cafarnaum. Quando já estavam em casa,
Jesus perguntou aos doze: ‘O que é que
vocês estavam discutindo no caminho?’
Mas eles ficaram calados, porque no
caminho tinham discutido sobre qual
deles era o mais importante. Jesus
sentou-se, chamou-os e disse: ‘Se alguém
quer ser o primeiro deve ficar em último
lugar e servir a todos.’ Aí, segurou uma
criança e a pôs no meio deles. E,
abraçando-a, disse aos discípulos:
‘Aquele que, por ser meu seguidor,
receber uma criança como esta, estará
também me recebendo. E quem me receber
não recebe somente a mim, mas também
aquele que me enviou.’” (Evangelho de
Marcos 9, versículos 33 a 37)
Imagine a cena: em mais um momento de
disputa entre os seus discípulos, o
Mestre traz uma criança como o foco que
não se deve perder quando o assunto é
hierarquia no Reino dos céus. Faz-se
mister olhar meninos e meninas diante de
uma estrutura hierárquica do sacerdócio
evangélico que nos remete ao pináculo do
templo freqüentado e disputado pelos
vocacionados a tronos e proeminências.
Somente o evocar do exemplo maduro da
criançada será capaz de exorcizar esse
nosso jeito lúcifer de ser, sempre
presente no infantilismo de criançolas
que aspiram uma promoção a pastor,
bispo, apóstolo, paipóstolo, arcanjo,
apóstata e anátema.
As infâncias que pensamos proteger
prosseguem blindando nossas humanidades
na jornada dos adultos cegos ou quase
míopes para aquilo que Phillip Yancey
chama de rumores de um outro mundo. Como
todo pai quase atento, meus pimpolhos
acenam diariamente com saberes
transcendentes para muito daquilo que
ainda ignoro. Afirmo que continuaremos
desaprendendo sobre a vida enquanto não
entendermos que filho, educando e ovelha
sempre ensinam pais, educadores e
pastores.
Henri Nouwen, ao ensinar sobre os muitos
pais e mães que existem, diz o seguinte:
“Uma das coisas mais belas que pode
acontecer na vida humana é que os pais
se tornem irmão e irmã em relação aos
seus filhos, que os filhos se tornem
pais e mães em relação aos pais, que
irmãos e irmãs se tornem amigos e que a
paternidade, maternidade e fraternidade
sejam profundamente partilhados por
todos os membros da família em
diferentes momentos e em diversas
ocasiões.”
Spielberg, em seu filme Guerra dos
mundos, apresenta-nos Rachel (Dakota
Fanning) que, em uma cena do filme, sabe
melhor que seu pai, Ray Ferrier (Tom
Cruise), discernir entre fogos de
artifício e artefatos de guerra. A
associação é inevitável, pois vivemos em
tempos de muitas pirotecnias e histerias
narcísicas nos arraiais evangélicos.
Saber discernir a belicosidade que
alimenta as nossas guerras santas é dom
exclusivo dos que se recusaram a deixar
de ser crianças para tornar-se adultos
adoecidos.
A fumaceira do espetáculo de crescimento
no segmento evangélico camufla as nossas
guerras existenciais, relacionais e
institucionais. E as fogueiras de
vaidades do alto clero e a subserviência
lobotômica do baixo clero definem a
nossa espiritualidade de gado - um gado
marcado com as iniciais de donos
humanos, ou melhor, de péssimos humanos,
e tudo isso travestido de um mover de
Deus que define o nosso vergonhoso e
triste jeito de ser evangélico. E o pior
é que essa vida de gado não nos permite
questionar a sacralização despudorada do
mercado gospel, que transforma o
ministro do Evangelho em vendedor de
Deus com Bíblia e o sentimento de
pertencer a uma igreja em mais um
mesquinho sonho de consumo, sob as
bênçãos de Mamon.
Daí a urgência em voltarmos os nossos
olhares para os meninos e meninas, as
crianças. Isso seria um exercício de
humildade, e como escreveu um anônimo
pai do deserto: “A humildade é
considerada pelos monges como a virtude
mais elevada, pois faz com que o ser
humano possa erguer-se até de um abismo,
mesmo que o pecador seja como um
demônio”. Somente aqueles que não
negligenciam o seleto e pequeno grupo
dos humildes sábios serão capazes de
vislumbrar a única e sensível senda do
autoconhecimento. Unamuno orou: “Alarga
a porta para que eu passe, ou, então, me
diminua para que eu passe e volte a
sonhar”. Cristo convida-nos a orar
pedindo que voltemos a ser crianças para
podermos entrar, entender e viver no
Reino de Deus.
Bem-aventurados os que vêem o menino
correndo e enxergam o tempo além do
registro do cronômetro. Bem-aventurados
os que miram a oportunidade além dos
oportunismos e vislumbram as chances e
desafios conscientes da profanidade que
há em nossos enormes e indisfarçáveis
egos.
Bem-aventurados os que enxergam a única
chance que temos de sermos pessoas,
famílias, amigos, igrejas, segmentos e
religiosos melhores. Essa
bem-aventurança dos aprendizes de novo
denuncia a neofobia dos velhos inseguros
que temem por seus cargos e seu status.
A criança como paradigma maior sempre
foi invocada pelos grandes mestres. O
sábio galileu já dizia: “Deixai vir a
mim os pequeninos”. Pois que ele abrace
crianças e as coloque diante dos nossos
olhos competitivos e altivos. Assim,
entenderemos o que significa receber
Deus nas crianças e aprenderemos a ser
recebidos como a ele ao nos
transformarmos em meninos e meninas.
Levi
Correa de Araújo
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