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O
Evangelho do Cinismo
15/11/2006
Aparência externa é fruto de disposição
interna
"Como pudestes então, tu e o teu marido,
fazer uma coisa destas para enganar o
Espírito Santo? Olha, ali mesmo à porta
estão os jovens que foram enterrar o teu
marido e que te vão levar a ti também."
1
Cinismo. Do gr. kynismós, pelo lat.
cynismu. Substantivo masculino. 1. (...)
2.P. ext. Impudência, desvergonha,
desfaçatez, descaramento. Cf. cenismo.
Bolívar Echeverría definiu acertadamente
que o cinismo se converteu "no sintoma
mais característico da civilização
atual". Para o filósofo equatoriano, o
cínico é alguém, por exemplo, "que
exerce a corrupção como substantivo
válido do respeito a lei. Alguém que não
sente escrúpulos ao utilizar em
benefício próprio os pontos de fracasso
de uma forma institucional vigente, as
zonas cegas onde ela e as normas
derivadas dela se mostram incapazes de
organizar adequadamente o conteúdo
social que as havia reclamado e ao que
elas aparentemente respondem. Alguém que
aproveita a falta de fundamento último
ou natural sobre a que se sustenta a
necessidade das normas estabelecidas."
(...)
Atores são cínicos. Vivem de
representação. Beatriz Segal que o
diga... mais de uma década depois ainda
é lembrada pela terrível vilã Odete
Roithman, cujo papel desempenhou tão bem
que a estigmatizou a ponto de ter feito
poucos trabalhos após Odete. Nas telas
ou no teatro, entretanto, sabemos que
estamos assistindo um ator representando
um determinado papel. O entretenimento
não sobressai nosso julgamento da
realidade.
Políticos são cínicos. Semelhantemente
vivem de representação. Confrontada pelo
jornalista Willian Bonner a respeito da
discrepância entre o programa do seu
partido e as entrevistas de campanha, a
candidata Heloísa Helena ficou
encurralada entre afirmar os ideais
esquerdistas do seu partido com o
discurso de campanha e tentou sair pela
tangente dizendo que programa de governo
não era o mesmo que programa de partido.
De forma inteligente encenou dois
personagens – a política idealista e a
eleitoral.
Religiosos são cínicos. Em nome da
promoção da pax mundi Ratzinger desfala.
Alegando que outro escreveu o que ele
pregou, tenta corrigir o erro que
cometeu, na tentativa de unir duas
religiões diametralmente opostas.
Cometeu o erro de Adão ao terceirizar a
culpa entre os redatores do Vaticano.
É óbvio que as afirmações acima não são
absolutas, ou auto-excludentes. Nem
todos os atores são cínicos (daí vários
são chamados canastrões por não
convencer o público dos seus
personagens), assim como nem todos
políticos ou religiosos são cínicos.
Quando nos tornamos cínicos? Pelo
radical, cinismo está relacionado com
cenismo donde deriva encenar. Lembre-se
de Ananias e Safira. Imagine como eles
combinaram a cena para ludibriar os
apóstolos. Afinal, quem poderia
descobrir o valor real da fazenda? Vamos
dar somente parte do dinheiro, dizendo
ser tudo, e ver no que este negócio de
igreja vai dar! Afinal a gente precisa
se resguardar... sabe... recessão,
inflação... vai que o messias demora pra
voltar e os apóstolos administrem mal o
nosso dinheiro! Ao ler o relato a
respeito de Ananias e Safira, com terror
podemos afirmar que eles armaram toda
aquela cena para enganar os apóstolos e
parecer algo que de fato não eram.
Cristãos verdadeiros também são cínicos.
Somos cínicos quando não temos
autenticidade em admitir nossas
fraquezas. Somos cínicos ao inadmitir
nosso próprio pecado, ou fazemo-lo
apenas para justificar nossa falta de
interesse por santidade, ou para
endossar o direito de apontar o pecado
alheio. Aprendemos as técnicas de
quebrantamento, arrependimento e
confissão que convencem os mais céticos
a respeito da nossa sinceridade.
Aprendemos o que falar em momentos de
tristeza de tal forma que deixe claro
nossa resignação, enquanto nosso coração
se contorce em gemidos inexprimíveis de
rancor, mágoa e questionamento.
Justificamos nossa indisposição no
estudo bíblico devocional insistindo que
a experiência é mais importante do que o
conhecimento, esquecendo-nos que a fé
vem pelo ouvir... Existe cinismo nos
pregadores que não são isentos quando
expõem a Palavra, antes usando dos
púlpitos para todo tipo de prática
repugnante como mandar recado à um
desafeto, manipular a congregação, fazer
campanha política em troca de favores,
etc...
A Bíblia não alude qualquer benefício
para o cinismo. Jesus foi um crítico
ferrenho à hipocrisia dos fariseus.
Apesar de ter demonstrado exímio zelo
pelas coisas de Deus, não poupou
esforços para derribar as barreiras do
cinismo, da religião institucionalizada
que se importava mais em manter as
aparências do que cuidar das vidas
estilhaçadas pelo pecado.
Jesus nos dá bons remédios para o
cinismo. Quando se encontrou com a
mulher do poço dirigiu-lhe a palavra
dando o primeiro passo rumo ao
transformador encontro. No leproso que
gritava: Filho de Davi tem misericórdia
de mim, ele tocou. Seu coração se
enfureceu ao ver a Casa de Oração
transformada e covil de salteadores e,
não temendo as represálias,
manifestou-se. Foi capaz de, com uma
frase – esta noite me negarás três vezes
-, desnudar a fragilidade da fé de
Pedro. Uma frase também foi suficiente
para constranger os que iriam apedrejar
uma mulher adúltera. Com uma frase curou
um jovem em casa, mesmo sem ir ter com
ele, mostrando que o poder de Deus não
necessita de cerimônias xamanistas para
invocar os super-poderes divinos. Seu
calendário de vacinação contra o cinismo
foi publicado sobre um monte, onde
proferiu as bem-aventuranças àqueles que
cultivassem os traços de caráter que,
juntos, combateriam de forma
extraordinária o cinismo que era, que é
e que há de vir. A fé do centurião (ao
crer estar o seu filho curado, mesmo sem
vê-lo), a obediência do cego (ao lavar
os olhos sujos de lodo no tanque), a
humildade da mulher cananéia, o
despreendimento de Levi ao seguir o
mestre (... pegue a sua cruz e
siga-me)...
Nem sempre somos cínicos com intenção de
enganar alguém. Recentemente conheci
histórias de pastores que, após muitos
anos de ministérios sentiram-se exaustos
e incapazes de seguir com o ministério
pastoral. No entanto, enfrentaram um
grande tabu para falar a respeito das
suas dificuldades, de sorte que por
muitos anos sofreram veladamente,
enquanto suas congregações não podiam
imaginar o que acontecia. Aparência
externa é fruto de disposição interna.
Quando tentamos manter uma aparência
externa sendo desonestos conosco mesmos,
o maior enganado não é a sociedade, mas
nós mesmos.
Gostaria de convidá-lo a conhecer alguns
traços de caráter que nos tornam
cristãos mais autênticos, derribando as
barreiras do cruel evangelho do cinismo
que se assenta no nosso meio.
Até breve.
Fabrício Batistoni
Fabrício Batistoni.
www.irmaos.com
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