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Fique em paz
30/9/2006
Aconteceu na Baixada Fluminense. O
cenário é a cidade de Belford Roxo. O
personagem é um pastor humilde, sem
diplomas, sem grande oratória e sem
ostentação material, mas dotado do
principal: unção do Senhor. O tempo já
vai um pouco longe. Um belo dia esse
homem de Deus recebe um convite para
pregar no centro de Belford Roxo, em
determinada igreja cuja denominação, por
zelo, vamos ignorar. O convite partira
do líder de mocidade. Tratava-se de uma
ocasião festiva para os jovens da igreja
e, no domingo, a programação seria
fechada “com chave de ouro”, ocasião em
que o nosso querido iria transmitir a
mensagem que o Senhor ainda o
entregaria. Aconteceria em três semanas.
Sentindo-se honrado pelo convite, que
lhe fora enviado em mãos, o pastor
começou a pensar no que deveria pregar.
Ele morava num subúrbio de sua cidade,
numa região menosprezada e carente de
recursos e facilidades. Pregar para uma
igreja no Centro prometia ser o máximo
em sua sofrida carreira de pastor.
Passara a vida cuidando de ovelhas
simples, gente do interior e sem
cultura, com quem tanto se identificava.
Andava de bicicleta por trilhas áridas e
difíceis, no exercício do sacerdócio.
Tantas vezes montara no lombo de um
burro e atravessara rios, nos interiores
do Estado, em tempos mais remotos, tudo
isso pra fazer uma oração por um,
explicar o plano de salvação a outro,
confirmar a fé de alguém ou fazer uma
cerimônia fúnebre de alguém mais. Agora
recebia um convite para pregar no
encerramento da programação da mocidade
de uma igreja do Centro!
Atente o leitor para o fato de que não
estamos falando do centro do Rio, e sim
do centro da própria Belford Roxo;
conquanto seja simples para o querido
leitor, não era assim para o nosso
personagem, cujo passado já vimos. Para
ele, o centro – ainda que de sua cidade
local – era lugar de luxo, onde, no
mínimo, haveria uma praça iluminada e
uma agência do Bradesco...
Lembrando-se de que a soberba precede a
queda, tratou de orar e pedir humildade
e sabedoria. Mas ficava ainda a
preocupação: e o que dizer a essa gente?
Era um povo diferente, mais empinado,
muitos tinham carro, tinham posses! Como
dirigir-se a eles com o seu vocabulário
simples? Bom, isso ficaria pra Deus
resolver. Esse convite não haveria de
deixá-lo fora de si. E foi pedir ao
Senhor uma palavra vinda da parte dele.
Ocorre que do outro lado, isto é, na
igreja que estava para realizar a
programação, manifestavam-se pequenas
facções, visíveis somente àqueles que
têm acesso aos bastidores. O líder da
mocidade e o pastor presidente não
pareciam falar a mesma língua,
especialmente quando a questão se
referia a programações. Para tristeza do
Espírito Santo, os itens da lista “longe
de vós” pareciam bem próximos,
palpáveis...
As três semanas se passaram e chegou o
dia da pregação, momento tão esperado
pelo nosso humilde pastor. Ele havia se
preparado, inclusive com jejuns, orações
e muito estudo, o máximo que pudera
fazer. Deus havia lhe dado uma palavra,
e ele estava feliz! Só não se sentia
mais alegre porque a esposa ficaria em
casa. Pegara uma gripe e sentia-se ainda
debilitada. Saiu de casa confiante,
acompanhado da filha de nove anos, após
ter orado pela mulher. Usava um terno
simples, mas caprichado - a camisa, a
calça e até o paletó bem passadinhos.
Fazia calor, aquele calor que só quem
vive ou já viveu no Estado do Rio de
Janeiro sabe identificar. Usar terno em
tais circunstâncias chegava a parecer
pecado contra o corpo. Aliás, era
horário de verão, então o sol estava
claro ainda às seis da tarde. O culto da
noite começaria às oito, mas era melhor
não se atrasar, chegar com uma certa
antecedência. De mais a mais, o ônibus
poderia demorar a vir...
Quando o pastor e sua filha colocaram os
pés no imponente prédio da igreja, um
diácono lhe perguntou, com olhar
interrogativo:
- Pois não...?
- É... – respondeu o pastor meio
desconcertado. – Eu gostaria de falar
com o pastor da igreja.
- Pois não. – disse novamente o diácono.
– O senhor pode aguardar ali. Ele não
chegou ainda.
O lugar indicado era o último banco do
salão de culto. O diácono explicara que
não poderia deixá-lo na sala de espera
porque estava trancada. Eram seis e
vinte. Deu seis e meia, seis e quarenta,
sete horas, sete e meia... nada.
Às sete e quarenta e cinco, o salão
começou a receber as pessoas. Crianças e
adolescentes vindos das uniões de
treinamento, jovens, casais e visitantes
iam aos poucos enchendo o espaço. Dentro
de quinze minutos o culto iria começar.
Por ser o “culto dos jovens”, já se via
ali na frente o instrumental peculiar às
novas gerações – guitarra, bateria,
teclado, baixo, percussão e outros
badulaques. A coisa prometia. Ao fundo,
alguém havia colocado um disco pra tocar
com um arranjo considerado jovem de um
hino que dizia “qual o adorno desta
vida? / é o amor, é o amor...” Havia uma
certa euforia no lugar.
- Pai, cadê o homem que você queria
falar com ele?
A pergunta da filha soou como uma
facada. “Cadê o homem?” Nem ele sabia.
Ficara esse tempo todo ali, sem que
ninguém lhe oferecesse ao menos um copo
d’água. Por estranho que parecesse,
ninguém até então havia lhe dito uma
palavra, e ele não tivera acesso ao
pastor da igreja. O diácono que lhe
dissera para esperar simplesmente
desaparecera de cena. O que estaria
acontecendo?
Começou o culto. E ele ali, no mesmo
banco, que por sinal era o último.
O líder dos jovens apareceu e foi falar
com ele. Constrangido, deixando escorrer
gotas de suor da cabeça, encurvou-se
para falar com o convidado. Explicou-lhe
o ocorrido. É que o pastor presidente da
igreja havia convidado um colega seu de
seminário, um pregador de São Paulo. A
falha era dele, do líder de mocidade,
que tentara cancelar o convite, mas de
fato houvera um mal entendido entre ele
e o pastor presidente, e o tempo para
comunicar não fora suficiente. Como o
querido não tivesse telefone em casa, o
líder dos jovens mandara um recado
através de um adolescente, mas, pelo
visto, não surtira efeito. Só restava
pedir desculpas e dizer ao pastor que
ficasse para o culto, que se sentisse em
casa, que não fosse embora. No final da
programação, haveria um lanche...
O culto rolou normalmente. Nenhuma
menção foi feita ao pastor que havia
sido convidado pelo líder dos jovens.
Nenhum pedido de desculpas oficial, de
púlpito, nada. Não o chamaram nem para
uma oração. Sua presença passou sem ser
notada. Nosso amigo também não se
importou. Aos poucos ia dizendo a si
mesmo que fora melhor assim. Afinal, a
igreja era tão chique, comparada à sua
pequena congregação. Deus sabe o que
faz. E deixou-se ficar ali, ouvindo a
guitarra e a bateria, o coral, os
testemunhos, os elogios ao irmão Fulano
e à irmã Beltrana (gente de expressão na
igreja), a pregação, os avisos e os
agradecimentos.
Encerradas as atividades, teve de dizer
à filha que deveriam ser rápidos. Por
ser dia festivo, a coisa havia se
estendido um pouco além do horário, e só
depois ele foi perceber que poderiam
perder o último ônibus pra casa.
Perderam. E sem saber, ficaram esperando
um pouco mais pra ver se vinha o ônibus,
e nada! Poderia vir o outro, que deixa
um pouco mais longe, mas nem esse vinha.
Da igreja local não recebera nem um
aperto de mão, quanto mais uma carona!
Com o passar do tempo, a rua já ia
ficando deserta e escura. Mais de 40
minutos haviam passado, era um pouquinho
mais de meia-noite. E ao pensar na
mulher, na filha, no calor, na sua
congregação pequena e nessa história
toda, teve vontade de chorar.
Foi quando surgiu na rua escura uma luz.
Era um carro grande, bonito, irradiando
luminosidade por todos os lados, a ponto
de ofuscar a visão de qualquer um que
olhasse pra ele. Parou em frente ao
pastor e sua filha. Chamou-os pelo nome
e disse: “Entrem. Vou levar vocês pra
casa.”
Os dois entraram. Havia algo de familiar
naquela pessoa que lhes passava
confiança, muito embora não conseguissem
identificar quem era. A voz era meiga e,
ao mesmo tempo, firme. Fosse quem fosse
guiava o carro muito bem. Este, por sua
vez, não fazia barulho e parecia
deslizar leve numa pista conhecidamente
esburacada. A luz ao redor era intensa e
quebrava as trevas do lado de fora. O
estranho puxou conversa:
- Você ia pregar esta noite, não ia?
- Ia... – respondeu o pastor, imaginando
como ele poderia saber.
- Outra pessoa acabou pregando...
- É...
- Você conseguiu se sentir à vontade
ali?
- Pra falar a verdade, não...
- É... – disse o motorista. – Eu também
nunca consegui me sentir bem ali. Na
verdade, não tenho acesso àquele lugar.
Já tentei, mas não consigo ficar ali.
O motorista foi rápido. Em pouquíssimo
tempo havia deixado os dois em casa.
Antes de se despedir, olhou fixamente
nos olhos do pastor e disse apenas uma
frase: “Fique em paz.” Dito isto, sumiu
nos ares, deixando a rua deserta.
Uma paz enorme invadiu o coração do
pastor, que, em sua simplicidade,
percebeu haver sido alvo da companhia de
Jesus. Algo que ninguém, jamais poderia
tirar dele. A certeza de que as honras
deste mundo nada valem, quando se está
diante dAquele que tem toda honra. A
alegria incompartilhável de saber que,
em algum momento, o céu interrompeu suas
atividades para deixá-lo em casa. Em
algum lugar na Baixada Fluminense.
Zazo
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