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ELE ERA DAISY
24/4/2006
Era
um travesti alto, magro e desengonçado,
e tinha uns implantes. Não sei como
começou na homossexualidade, mas disse
que tinha sede de Deus desde antes.
Quando criança, num passeio a uma Igreja
Católica com sua mãe, viu um caixão de
vidro com uma estátua de Jesus dentro.
“Igreja do Jesus morto”; a mãe era
devota. Quando chegaram perto, ele,
pirralho, sentiu que Jesus lhe olhava.
– Mãe, Jesus está vivo!
– Pare de dizer besteira, menino... –
ela não viu, mas ele sabia que Jesus não
estava morto.
Adulto, Daisy foi se desiludindo consigo
mesmo numa sede que não terminava por
outro tipo de vida, apesar de ter tudo o
que um travesti poderia desejar, como um
parceiro e um filho adotivo. Ligava o
rádio na sintonia dos pentecostais.
Ouvia músicas e pregações o dia inteiro.
Não se cansava nem da repetição nem dos
chavões. Ouvia até a hora de sair para
ganhar a vida na rua. Tornou-se um
hábito ouvir o evangelho. O parceiro e
os vizinhos se irritavam. Daisy ficava
mais amuado, mais convicto. Começou a
ler a Bíblia.
Uma noite não agüentou mais. Percebeu
que não tinha coração para levar a vida
assim. Decidiu que aquela seria a sua
última noite na rua. Ouviu rádio e pegou
a Bíblia. Abriu no primeiro capítulo de
Apocalipse, que fala sobre a revelação
de Jesus, em suas vestes de luz e língua
como espada de fogo. Lindo! Assim seria
sua fantasia, a última da vida de rua.
– Vou de “drag-jisas”.
Enfeitou-se todo de branco e dourado,
reverente. Não era uma drag qualquer,
era o próprio Jesus de uma maneira
simbólica dizendo-lhe que chegara sua
hora de mudar. Não conseguiu fazer a
vida naquela noite; pregava sem parar,
como os pregadores do rádio que ouvia há
tanto tempo. Pregava para as
prostitutas, para os clientes, para os
passantes. O ponto se esvaziou, os
habituais corriam para não ouvi-lo.
Finalmente, no romper da manhã, tendo
arruinado a noite de todos os
freqüentadores do ponto, sentou-se
feliz, cantando uma daquelas músicas do
tipo “sai demônios e vem Jesus”.
Logo depois Daisy adoeceu e descobriu-se
portador do vírus HIV. Estranhamente não
teve medo. Sua irmã conhecia algumas
pessoas em Belo Horizonte e resolveu dar
uma passada por lá para ver se
encontrava ajuda para ele. A vida tem
seus caminhos; ao receber a medicação,
Daisy encontrou também algumas pessoas
do grupo VHIVER, que ajuda portadores do
vírus da aids a viver com qualidade. De
lá esbarrou nos crentes da Caverna de
Adulão e conheceu o Jesus que amava.
Converteu-se, “destravecou-se”,
“homenzou-se” do melhor jeito que pôde.
O parceiro ficara no Rio de Janeiro com
o filhinho adotivo. Teve de dizer-lhe
que era homem agora e que cuidaria do
filho, mas já não seria “casado”.
Sentiu-se puro como um bebê. Dizia que
já tinha feito sexo demais a vida toda e
agora não precisava mais; iria viver
para Deus de todo o seu coração...
Mas não podia ficar em Belo Horizonte,
tinha de voltar ao Rio. O Geraldo, da
Caverna, se preocupou: “E agora, o que
vai ser de Daisy? Quem vai entendê-lo
para integrá-lo?”A essa altura Daisy já
se chamava como homem, mas os trejeitos
de uma vida no submundo não saem fácil.
As marcas (as mãos na cintura, o andar
reboloso e a voz fina que ainda
desafina) ficam.
Daisy voltou para o subúrbio do Rio.
Despachou o parceiro, pegou suas coisas
e mudou-se. Mas aí veio a parte dura:
conseguir um emprego, se sustentar de
maneira digna e encontrar uma igreja
onde fosse aceito. Nos primeiros meses
quase não tinha dinheiro; a única
congregação do bairro era o lugar mais
perto. As emoções de Daisy ainda eram as
emoções de uma caricatura de mulher. Ia
à igreja esperando amor como o que
encontrara em Belo Horizonte. No começo
encontrava o porteiro:
– “Tem culto hoje não, desculpe.”
– “Ah...” – o ar decepcionado de Daisy
não mudava em nada a cara do porteiro.
Infelizmente a igreja não conseguiu
entender o rapaz. Daisy tentou mais uma
e mais outra. Mas o que aconteceria se
no bairro vissem aquele homem ainda com
peitos freqüentando os cultos? Terminou
por entender que não era bem-vindo –
mais uma ferida para carregar para quem
já sofreu tantas.
Sem ajuda na fé e sem apoio econômico e
social para recomeçar, a fé de Daisy se
apagou. Geraldo o viu um dia desses nas
páginas de uma revista, militando pela
causa homossexual, e respirou aliviado,
pensando: “Pelo menos ele ainda está
vivo...”
Daisy, se você está lendo isto, tente
outra vez. Vamos aprender a caminhar com
você pelo caminho da restauração. Vamos
aprender a fazer da sua vergonha a nossa
vergonha e, pelo nosso amor, fortalecer
a sua fé naquele que nos transforma.
Artigo publicado plea Ultimato
Bráulia Ribeiro é missionária em Porto
Velho, RO, e presidente da JOCUM –
Jovens com Uma Missão
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