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DO
SANGUE DOS MÁRTIRES AOS SANGUESSUGAS
7/8/2006
A imprensa nacional tem dado grande
espaço à Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPI) que trata de
superfaturamento de ambulâncias para os
municípios, também conhecida como “a CPI
dos Sanguessugas”. As CPI’s sempre
funcionam como palanque de promoção
pessoal para alguns parlamentares
(alguns de currículo não-invejáveis),
que se apresentam como paladinos da
moralidade. O destaque da imprensa foi
para a suposta participação de 30% de
integrantes da chamada “Bancada
Evangélica”, e de um líder da “Renovação
Carismática Católica”. A religião
professada pelos demais acusados não foi
explicitada. Nas CPI’s, como se sabe, os
julgamentos são políticos e não
jurídicos, identificando-se acusados com
condenados, em uma inversão do princípio
do Direito da presunção da inocência do
acusado até condenação transitada em
julgado. A censura política de todos nós
deve ser feita pelo expressar veemente
por palavras e votos. A dimensão penal
cabe ao Estado, pela via do Poder
Judiciário.
A presença de evangélicos em episódios
antiéticos nos entristece sempre, mas
não nos surpreende. Temos alertado para
isso por muitos anos. Fizemos, então, a
distinção entre “evangélicos políticos”
(cidadãos evangélicos eleitos por seus
programas e méritos para o bem-comum de
toda a sociedade) de “políticos
evangélicos” (cidadãos evangélicos
eleitos pelo voto controlado das
igrejas, com ânimo meramente
corporativista de trazer benesses do
Estado para as mesmas). No final dos
trabalhos da Constituinte, em 1988,
órgãos da imprensa, como o Jornal do
Brasil e o Correio Brasiliense, chamavam
a atenção para o dado de que dos 34
parlamentares evangélicos de então
apenas 06 não tinham sobre si a suspeita
de comportamento antiético. O voto dos
“currais eleitorais” em “candidatos
oficiais”, com deficiente conhecimento
histórico, teológico e ético dos
princípios cristãos para a ação
política, carentes de experiência na
vida pública e jejunos de conteúdo
ideológico ou programático, com uma
motivação meramente corporativista, tem
resultado em uma prática clientelista,
ferindo a ética, a busca pelo bem-comum
e os valores do Reino de Deus. Em alguns
casos, pode-se adicionar um quê de
triunfalismo teocrático.
Desde a inserção do Protestantismo
missionário no Brasil (1850) até o Golpe
Militar (1964) tivemos uma positiva
participação política, principalmente de
membros das Igrejas históricas, mas,
também, pentecostais, como o Governador
interino do Estado de Pernambuco, o
deputado estadual e líder sindical dos
tecelões, o assembleiano Torres Galvão,
ainda na década de 1950. O manipulado
temor do Comunismo, a repressão do
Regime Militar e a disseminação (na
década de 1970) da heresia “crente não
se mete em política” levaram ao desastre
de uma ruptura histórica, de uma amnésia
coletiva em relação a episódios e
personagens dignificantes do passado e
ao surgimento, desde então, de gerações
de alienados.
A luta pela anistia, pelas eleições
diretas e pela Constituinte concorreu
para o início de uma nova consciência
política, com a entrada no cenário de
Igrejas pentecostais antes refratárias e
do novo fenômeno neo(pós)pentecostais
(sem passado) e um retraimento dos
protestantes históricos em termos de
candidaturas. Privilegiou-se a via
eleitoral, em detrimento de outras áreas
do exercício da cidadania. Optou-se por
partidos de reduzido compromisso de
fidelidade e escasso ou inexistente
conteúdo ideológico. Desde então quase
nada se avançou em termos de estudos
bíblicos, teológicos, históricos ou
éticos sobre a Política, aumentou o
número de eleitos e, lamentavelmente,
aumentou, também, a ineficácia e os
escândalos. Evangélicos competentes e
éticos têm-se omitido de participar mais
ativamente, apenas concorrendo para
piorar a situação. Caímos na vala comum
do “toma lá dá cá”, que infelicita a
vida pública brasileira. Alguns dos
políticos evangélicos nunca estudaram
nada a respeito, porque suas igrejas
nunca os ensinaram. Eles não podem dar o
que não receberam. Esse quadro trágico
de alienação, omissão e corrupção
(“mundanismo político”) faz com que o
aumento numérico dos evangélicos não
concorra para a redução numérica das
mazelas sociais e morais do país. No
fundo, com essas lacunas e distorções,
não estamos sendo nem “sal”, nem “luz”.
Falta Protestantismo. Falta
Evangelicalismo: consciência de pecado,
conversão, busca de santificação e
paixão missionária transformadora
(alguém já ouviu falar em “novo
nascimento” na maioria dos programas de
rádio e televisão ditos “evangélicos”?).
Com o coração pesado e a alma triste,
oramos, denunciamos, propomos, confiante
no Senhor da História e da Igreja, por
um milagre de Avivamento e Reformas
genuínas. O sangue de Cristo nos salvou,
o sangue dos mártires tem sido a semente
da fé, os sanguessugas um opróbrio para
saco e cinza, em temor da mão pesada do
Senhor.
Neste ano de eleição façamos uma
autocrítica, um exame de consciência, um
arrependimento e uma rededicação de
vidas úteis e responsáveis, que fazem
diferença. Abramos os olhos em
discernimento. Vençamos o egoísmo, o
comodismo e a tentação do poder.
Vacinemo-nos contra as picadas da “mosca
azul”. Lutemos pela superação do pecado
social, da mesmice política e das falsas
alternativas. Busquemos tornar novas
todas as coisas, com propostas eternas
que são novidades, e que necessitarão da
nossa instrumentalidade em
co-beligerância com novos líderes.
Revmo. Robinson Cavalcanti
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