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Ricardo
Gondim
Covardia
Depois de muito lutar para conseguir superar meus medos,
depois de fatigado e curvado pelo esforço de me tornar
um Cavaleiro
Andante, reconheço: sou um medroso.
Percebi minha covardia depois que somei as vezes que já
me escondi; depois que lembrei os dias que não consegui
olhar direto nos olhos de minha mãe; depois que dei o
braço a torcer por ter passado nos exames do ginásio
desonestamente – eu odiava ter que ouvir qualquer
desapreciação do meu pai; depois que admiti que minhas
taras adolescentes me alienaram do mundo.
Fui vagaroso nessa auto-análise porque sempre consegui
fugir de minha realidade por escadas de incêndio, minhas
rotas de fuga. Assim, de pouco em pouco, fui me
escolando na arte de esgueirar-me por entre estranhos e
de passar despercebido.
Sinto-me acovardado diante dos paradoxos que convivem
dentro de mim. Sou uma encarnação cearense do “Yin e
Yang”. Se em determinados momentos tenho impulsos
fidalgos, em outros me comporto como a escória da
humanidade; gero horror e esperança; produzo cura e
morte, desprezo e amor.
Atemorizado diante da grandiosidade das forças que me
esticam por dentro, escondo-me atrás de chavões piegas,
refugio-me na fama de preletor onipotente, solidifico
meus traquejos sacerdotais, e subo o volume dos decibéis
quando vocifero sobre a verdade. Mas essa coreografia
não passa de uma farsa que tenta camuflar um homem fraco
que sua no instante de decidir entre o certo e o errado.
Sinto-me acovardado com os retrocessos que não me
permitem amadurecer como pessoa. Quanto mais velho, mais
tropeço com minha língua, falo inconveniências; continuo
displicente em não saber elogiar as pessoas que tanto
amo; permaneço um bronco sem perceber os reclames
daqueles que só desejam minha companhia. Fujo dos meus
amores. Timidamente interrompo a grandiosidade do afeto
de meus queridos.
Aprendi a desfilar diante das multidões impessoais que
jamais me confrontariam em nada; sinto-me à vontade em
ambientes onde só se discutem idéias; mudo de assunto
quando alguém está perto de desencaixotar o farsante que
vive nos porões de meu espírito.
Sinto-me acovardado com a possibilidade de perder minha
reputação. Tenho horror de imaginar que possa ser motivo
de conversa em alguma roda de restaurante. Fico tremendo
de saber que algum crítico conseguiu desmontar-me.
Medroso, esforço-me por manter-me ambíguo, prefiro não
ser claro sobre minhas posições heterodoxas. Fico
petrificado de poder ser “escanteado” pelos meus antigos
amigos.
Mereço a maldição do Apocalipse de ser vomitado da boca
de Deus. Fico mais alarmado de ser frio ou quente do que
um morno que coxeia entre dois caminhos. Lamento que
muitas intuições minhas jazerão eternamente em algum
arquivo morto. Elas sumirão comigo só porque jamais
terei peito de defendê-las entre aqueles que poderiam se
escandalizar.
Sinto-me acovardado sempre que sou forçado a arriscar
diante de algum projeto. Tenho plena consciência de que
em toda façanha, quando fui arrojado, só me comportei
assim porque alguém – ou alguma coisa? – me empurrava.
Pusilânime e sem topete para sequer dizer não, continuei
liderando.
Hoje aquiesço que nunca me vi como nenhum
D’Artagnan
ou Ricardo
Coração de Leão. Quando me dei bem na vida,
foi por causa de Deus, da minha mulher e dos meus amigos
- ou por pura sorte.
Continuo acovardado. Preciso de gente que me estimule,
me encoraje, me ajude e me segure pela mão.
Não arrisco dizer quando me transformarei em valente.
Sei apenas que, aos tropeços, cheguei aqui.
Soli Deo Gloria.
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