|
Como eu amo a tua lei!
20/3/2006
Aconteceu num feriado. O sol já
caminhava na metade do seu percurso
quando preguiçosamente resolvi sair da
cama. Sem coragem de tomar um ônibus
para ir à praia, resolvi ficar em casa e
ler. Fui até a estante, sempre
abarrotada e sempre empoeirada, querendo
escolher um livro que me servisse de
companhia naquele dia, que eu supunha
sem importância. A Bíblia de capa preta
se sobressaiu; parecia pedir-me que
escolhesse.
Eu já tentara ler a Bíblia, mas nunca
consegui atravessar seu quarto livro,
Números. Aquelas estatísticas
intermináveis me faziam cochilar.
Hesitei, mas parecia que duas mãos se
estendiam do dorso, suplicando que eu a
pegasse. Aquiesci e peguei o tomo preto.
Adolescente, eu não cogitava grandes
mudanças de vida. Ledo engano: depois
daquele dia jamais seria o mesmo.
Deitei-me e comecei a folheá-la; lembrei
que meus amigos crentes haviam me
aconselhado a ler o Novo Testamento.
Abri em Mateus e em poucos minutos
cheguei ao Sermão do Monte. Cada
versículo alongava-se das páginas como
um punhal, lacerando minha alma. As
verdades proferidas pelos lábios de
Jesus me encurralaram. Mateus 7.13-14
levou-me a nocaute: “Entrem pela porta
estreita, pois larga é a porta e amplo o
caminho que leva à perdição, e são
muitos os que entram por ela. Como é
estreita a porta, e apertado o caminho
que leva à vida! São poucos os que a
encontram”. Assim, no começo da tarde,
com a porta trancada, ajoelhado e
resoluto, assumi um compromisso de
seguir a Jesus Cristo por essa vereda
estreita.
Desde aqueles verdes anos procurei
referenciar minha vida neste livro
magnífico. Tentei estudá-la; meditei em
seus versículos em minhas horas
tranqüilas; fiz palestras e sermões em
suas verdades. Mas sinto que ainda não
consegui chegar às margens da
profundidade do conhecimento e sabedoria
da Palavra de Deus. Quanto mais me
detenho em seus ensinos, maior é meu
espanto, meu maravilhamento.
A Bíblia é uma coletânea de livros com a
história de pessoas, famílias, nações e,
sobretudo, a linhagem do Messias.
Fascinam-me os relatos milenares do
comportamento humano nas crônicas, a
sabedoria popular dos provérbios, a
indignação dos profetas, as orações dos
Salmos e a sistematização de verdades
eternas das epístolas.
Alguns detalhes da Bíblia me deixam
admirado. Ela nunca foi homogeneizada
pelo poder eclesiástico. As histórias de
seus heróis não foram retocadas. Assim,
sabe-se que o patriarca Abraão mentiu e
agiu impensadamente em diversas
ocasiões; que Moisés, o homem mais manso
que o mundo conheceu, irou-se; que Davi,
o mais amado rei em Israel, adulterou e
ainda tramou o assassinato de um soldado
leal. A Bíblia não mascara que a igreja
primitiva teve de aprender a conviver
com pontos de vista distintos — Pedro e
Paulo travaram debates ríspidos sobre
usos e costumes; as igrejas plantadas no
primeiro esforço missionário tinham
idiossincrasias seriíssimas — a igreja
de Corinto chegou a vulgarizar o
sacramento da Eucaristia.
Ao contrário de outros livros sagrados,
a Bíblia não alega ter sido ditada ou
psicografada. Em 2 Pedro 1.21, o
apóstolo reconhece que sua origem é
divina, mas respeita a singularidade dos
autores: “Pois jamais a profecia teve
origem na vontade humana, mas homens
santos falaram da parte de Deus,
impelidos pelo Espírito Santo”. O
conceito teológico para sua “inspiração”
significa que Deus respeitou a liberdade
e as ambigüidades humanas, permitindo
até possíveis contradições dos relatos
históricos. Diante de circunstâncias
diversas, os autores demonstraram que a
revelação das verdades eternas podia se
dar dentro de contextos geográficos,
sociais e culturais distintos.
Contudo, a maior grandeza da Bíblia vem
da encarnação. A chegada do Messias, seu
breve tempo de vida na terra, seu
curtíssimo ministério fazendo o bem e
anunciando a chegada do reino de Deus,
sua morte e ressurreição, constituem-se
na mais alvissareira notícia já
impressa. Até Jesus Cristo vir, Deus
resumia-se a uma especulação filosófica
ou religiosa. Os gregos afirmavam que,
assim como um pássaro não pode voar até
o infinito, os seres humanos, mortais,
jamais poderiam alcançar a divindade
eterna. No cristianismo, Deus fez o
caminho inverso. “Aquele que é a Palavra
tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos
a sua glória, glória como do Unigênito
vindo do Pai, cheio de graça e de
verdade” (Jo 1.14). A singularidade da
Bíblia vem da encarnação de Jesus. O
filho de Maria fez Deus conhecido da
humanidade. Paulo ressalta essa verdade
em sua carta aos colossenses (Cl 2.9):
“Pois em Cristo habita corporalmente
toda a plenitude da divindade”.
Em João 14.8-9, Felipe pediu a Jesus o
que toda a humanidade mais deseja: uma
revelação completa de Deus: “‘Senhor,
mostra-nos o Pai, e isso nos basta’.
Jesus respondeu: ‘Você não me conhece,
Filipe, mesmo depois de eu ter estado
com vocês durante tanto tempo? Quem me
vê, vê o Pai. Como você pode dizer:
Mostra-nos o Pai’?”
Todas as vezes que ouço a Bíblia sendo
exposta, sei que suas verdades brilharão
como feixes de luz, guiando o viajante
pelas tortuosas estradas da vida, pois o
Salmo 119.105 afirma: “A tua palavra é
lâmpada que ilumina os meus passos e luz
que clareia o meu caminho”. Quando
encontro alguém arqueado de culpa, gosto
de recomendar o Evangelho de João.
Qualquer um pode se colocar no diálogo
entre Jesus e uma mulher prestes a ser
apedrejada: “‘Mulher, onde estão eles
[os seus acusadores]? Ninguém a
condenou?’ ‘Ninguém, Senhor’, disse ela.
Declarou Jesus: ‘Eu também não a
condeno. Agora vá e abandone sua vida de
pecado’” (Jo 8.10-11).
Passados milênios desde que a Bíblia
Sagrada foi escrita, estudiosos se
revezam tentando analisá-la, mas ela
permanece um mistério. E diante do
mistério reconhece-se a limitação
humana. Razão e método não abrangem todo
o “conselho de Deus”. Por isso, Paulo
afirmou em Romanos 11.33-36: “Ó
profundidade da riqueza da sabedoria e
do conhecimento de Deus! Quão
insondáveis são os seus juízos e
inescrutáveis os seus caminhos! Quem
conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi
seu conselheiro? Quem primeiro lhe deu,
para que ele o recompense? Pois dele,
por ele e para ele são todas as coisas.
A ele seja a glória para sempre! Amém”.
Neste mundo sedento de esperança, a
Bíblia pode tornar-se um manancial de
vida, desde que volte a ser o livro de
cabeceira que alimenta a vida devocional
e o alicerce dos princípios que
nortearão as decisões do dia-a-dia.
Soli Deo Gloria.
Ricardo Gondim - Ultimato
|