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A Terra está morrendo
20/2/2007
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Agora, na velhice, minha grande preocupação é o fim do mundo.
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ALGUNS DOS meus livros estão espandongados: lombadas descoladas,
folhas soltas, outras rasgadas. Estão assim pelas muitas vezes que
com eles fiz amor repetido e furioso. Outros livros estão perfeitos.
Nunca desejei fazer amor com eles.
De todos os meus livros os que mais amo e que, por isso mesmo, estão
em pior estado, são as obras de Nietzsche. Quando li Nietzsche pela
primeira vez eu me espantei e disse: "Esse homem passeia por lugares
da minha alma que não conheço!" Hoje é meu companheiro.
Ele escreveu em alemão. Mas o meu alemão é capenga. Tenho de usar o
dicionário como bengala. Com isso perco o essencial: a música da sua
escritura. Por isso valho-me das maravilhosas traduções de Walter
Kaufmann para o inglês. Para se traduzir Nietzsche não basta saber
alemão; é preciso ser poeta.
Agora, na velhice, minha grande preocupação é o fim do mundo. A
Terra está morrendo. Os cientistas já fazem cálculos acerca dos
poucos anos que lhe restam. Convivo bem com a idéia da minha morte.
Mas a idéia da morte da Terra é-me insuportável. Até já escrevi um "uai-cai".
"Uai-cai" é o jeito mineiro de fazer hai-kais. "Uai", para expressar
o assombro ante a vida. E "cai" para exprimir a tristeza de ver cair
o que estava lá no alto. Meu "uai-cai" é assim: "O último sabiá
canta seu canto... Que pena! Já não há ninguém para ouvi-lo..."
Relendo a "A Ciência Alegre" de Nietzsche reencontrei-me com o seu
texto mais famoso, aquele em que ele diz que "Deus morreu". E de
repente, à medida em que eu o degustava antropofagicamente, o texto
foi se apossando de mim, como se fosse vinho. Fiquei meio bêbado. E,
na minha embriaguez eu troquei umas palavras. O texto ficou assim: A
cena: um louco grita numa praça. Dirige-se àqueles que ali estão.
Eles riem e zombam. "O que aconteceu com a nossa Terra?", ele
gritou. "Pois vou lhes dizer. Nós a matamos -vocês e eu. Todos nós
somos seus assassinos.
Mas como é que fizemos isso? Como é que fomos capazes de beber os
rios e comer as florestas? Quem nos deu a esponja para apagar os
horizontes do futuro? O que fizemos quando partimos a corrente que
ligava a Terra à Vida? Para onde ela irá? Vagará pelo Nada infinito?
Esse hálito que sentimos, não é o hálito da morte? E esse calor! Os
gelos estão se derretendo.
Já se vê o cume negro do Kilimanjaro, outrora vestido com a brancura
da neve. O mar subirá. O sol está mais quente e mortífero. Temos de
nos proteger contra os seus raios. E esse barulho que ouvimos em
todos os lugares, o ruído das fábricas, o barulho das bolsas de
valores não será, porventura, o barulho dos coveiros que a enterram?
O ar que respiramos é o ar da decomposição.
A Terra está morta. Nós a matamos. Como poderemos nós, os assassinos
da Terra, nos confortar a nós mesmos? A Terra, extensão dos nossos
corpos, a mais sagrada, sangrou até a morte sob nossos punhais...
Quem nos limpará desse sangue?" Relatou-se depois que, naquele mesmo
dia, o louco entrou em várias bolsas de valores, bancos e indústrias
e lá cantou o "Réquiem para a Terra Morta". Retirado de lá e
compelido a se explicar, a cada vez ele disse a mesma coisa: "Que
são esses templos do progresso se não os sepulcros da Terra?"
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PS: O texto tal como Nietzsche o escreveu pode ser encontrado no
site www.rubemalves.com.br
Rubem Alves
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