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As
cem (sem?) razões de meu desencanto.
25/4/2006
Não
perdi o juízo. Minha espiritualidade não
foi a pique. Minhas muitas tarefas não
me esgotaram. Entendo que meu texto, “Já
sei por onde não ir”, causou espécie .
Para alguns pareceu vago, para outros,
inconsistente. Várias pessoas me
avisaram que intercediam diante de Deus
pedindo que Ele me acudisse nesse
momento delicado de minha vida. Calma!
Não há motivos para espantos!
Minha peregrinação cristã está, há
muito, marcada por rompimentos. O
primeiro, deu-se com a igreja católica,
onde nasci, fui batizado e fiz a
primeira comunhão. Em minhas
premonitórias inquietações com os dogmas
religiosos, pedi explicações a um padre
sobre algumas práticas que não faziam
muito sentido para mim: a veneração dos
santos, as rezas diante de imagens de
escultura e, principalmente, a
transubstanciação da eucaristia, na
missa. O sacerdote deu-me as costas, mas
advertiu: “Meu filho, afaste-se dos
protestantes, eles são um problema!”.
Lendo a Bíblia, decidi sair do
catolicismo; um escândalo para uma
família que tinha padres e freiras na
árvore genealogia e nenhum “crente”.
Acabei participando da Igreja
Presbiteriana Central de Fortaleza
porque meus únicos amigos crentes eram
de lá. Enfronhei-me totalmente como
membro atuante: freqüentei sua escola
dominical, trabalhei com outros jovens
na impressão dos boletins, organizei
retiros e acampamentos, tentei cantar no
coral, liderei a União de Mocidade;
enfim, fiz tudo o que podia dentro
daquela estrutura. Fui calvinista e
acreditei, por muito tempo, que Deus, ao
criar todas as coisas, ordenou que o
universo inteiro se movesse de acordo
com sua presciência e soberania,
inclusive as pessoas que vão para o céu
e para o inferno. Essa doutrina fazia
muito sentido para mim, até porque
acreditava ser um dos eleitos. Numa
situação bem confortável, podia
descansar: minha salvação estava segura.
Mesmo que caísse na gandaia, no último
dia, de um jeito ou de outro, a graça me
resgataria. O propósito de Deus para
minha vida nunca seria frustrado, me
garantiam.
Mas, numa determinada noite, o Espírito
Santo visitou-me com sua ternura.
Senti-me imerso no amor de Deus e causei
escândalo em nossa comunidade reverente
e bem comportada. Sob o impacto daquele
batismo, fui intimado a comparecer a uma
versão moderna da Inquisição. Numa
minúscula sala, pastores e presbíteros
exigiram que eu negasse minha
experiência, sob pena de ser
estigmatizado como pentecostal e sofrer
o primeiro processo de expulsão da
igreja desde seu estabelecimento, no
século XIX. Ainda adolescente e debaixo
daquele escrutínio opressivo, ouvi um
xeque mate pouco misericordioso: “Peça
para sair, evite o trauma de um
julgamento sumário. Poupe-nos de nos
transformarmos em algozes”. Às duas da
madrugada, capitulei e pedi minha saída.
A partir daquele momento, não seria mais
presbiteriano.
De novo, encontrava-me no exílio. Meu
melhor amigo, presidente da Aliança
Bíblica Universitária, pertencia a
Assembléia de Deus e desembarquei lá. Em
meu êxodo, procurava abrigo, sequioso
por uma comunidade onde desenvolvesse
minha fé. Cedo, vi que a Assembléia de
Deus estava engessada. Sobravam
legalismo, politicagem interna e ânsia
de poder temporal. Não custou reparar
que a instituição se achava acorrentada
por uma tradição farisaica e, pior,
iludia-se com sua grandeza numérica. Já
pastor da Betesda, atentei que eu me
tornava um estorvo para os processos que
mantinham um espírito de boiada. Eu
denunciava a gerontocracia assembleiana
que amordaçava os crentes e inibia o
senso crítico, produzindo uma geração de
pastores parecidos com vaquinhas de
presépio: sempre a balançar a cabeça em
aprovação aos desmandos dos que se
encastelavam no poder. Mais uma vez,
encontrava-me numa sinuca e precisei
romper com a maior denominação
pentecostal do Brasil. Dessa vez,
caminhei na companhia de minha querida
Betesda.
Agora, que sinto necessidade de me
distanciar do movimento evangélico, já
não tenho tanto medo. Minhas rupturas
anteriores não foram suficientes para
azedar minha alma e nem tão fortes que
me roubassem a fé – “Seja Deus
verdadeiro e todo homem mentiroso”.
Quem me conhece, principalmente os
membros da Betesda, minha comunidade de
fé, não precisa temer. Estou cada dia
mais empolgado com as verdades bíblicas
que revelam o Jesus de Nazaré; aumenta
minha vontade de caminhar ao lado de
gente humana que ama o próximo; sinto-me
estranhamente atraído à beleza da vida.
Procuro mentores, busco mais amigos que
me inspirem a alma.
Então, por que uma ruptura radical se
não quero nutrir a intolerância e evito
tornar-me um casmurro rabugento? Não
desejo ser um crítico que não cabe em
lugar nenhum. Não me considero dono da
verdade, nem palmatória do mundo. Pelo
contrário,cresce minha consciência de
como sou imperfeito. Luto para não
deixar que minha covardia me afaste de
confrontar meus próprios paradoxos. Não
nego que sou incapaz de viver tudo o que
prego - reconheço que a mensagem que
anuncio é muito mais excelente do que
minha vida. Sei que o modelo de igreja
que pastoreio ainda tem grandes
dificuldades. Contudo, insisto com a
necessidade de rescindir, pelas
seguintes razões:
1. Vejo-me incapaz de tolerar que o
Evangelho se transforme em negócio e o
nome de Deus vire uma marca que vende
bem. Não posso aceitar passivamente que
tentem converter os cristãos em
consumidores e a igreja, num balcão de
serviços religiosos. Entendo que o
movimento evangélico nacional se
apequenou e não consegue vencer a
tentação de lucrar como empresa. Não vou
continuar esmurrando pontas de facas.
2. Não consigo mais admirar a enorme
maioria dos formadores de opinião dentro
do movimento evangélico (principalmente
os que usam da mídia). Conheço muitos
deles fora dos palcos e dos púlpitos.
Sei de histórias horrorosas, presenciei
fatos inenarráveis e testemunhei
decisões execráveis. Sei que muitas
eleições nas altas cupulas
denominacionais aconteceram com
casuísmos eleitoreiros imorais. Estive
em uma eleição para presidente de uma
enorme denominação e vi quando dois
zeladores do centro de convenção foram
aliciados por dinheiro, receberam
crachás, e votaram como pastores. Já
ajudei em “cruzadas” evangelísticas cujo
objetivo não passava de filmar a
multidão para mostrar nos Estados
Unidos, levantar dinheiro, e manter os
evangelistas em luxos nababescos. Sou
testemunha ocular de pastores que,
depois de orarem por gente sofrida e
miserável, debocharam, às gargalhadas,
das mesmas pessoas. Horrorizei-me com o
programa da CNN em que algumas das
maiores lideranças do mundo evangélico
americano apoiaram a guerra do Iraque.
Naquela noite revirei na cama sem
dormir. Parecia impossível acreditar que
homens de Deus colocariam a mão no fogo
por uma política beligerante e mentirosa
de bombardear um país, principalmente
porque ela vinha, satanicamente, apoiada
pela indústria do petróleo.
3. Concordo que no momento em que o sal
perde seu sabor, para nada presta senão
para ser jogado fora e pisado pelos
homens. Não desejo me sentir parte de
uma igreja que perdeu sua credibilidade
por centralizar sua mensagem na promessa
irresponsável de prosperidade; que busca
se especializar na mecânica de fazer
preces poderosas; de ensinar a virtude
como mero degrau para o sucesso. Não
suporto conviver em ambientes onde se
geram culpa e paranóia como pretexto de
ajudar as pessoas a reconhecerem sua
necessidade de Deus.
4. Não consigo identificar-me com o
determinismo teológico que impera na
maioria das igrejas evangélicas e que
enxerga tudo como parte da providência.
Há algum tempo, repenso algumas
categorias teológicas que me serviram de
óculos para a leitura da Bíblia e
entendo que esse meu exercício se tornou
ameaçador para muitos. Portanto, preciso
de lateralidade para contemplar as
contribuições das ciências e de outros
ângulos para ler as Escrituras. Não
agüento cabrestos, patrulhamentos e
cenhos franzidos. Desejo a companhia
amiga de qualquer pessoa que molde sua
vida, consciente ou inconsciente, pelos
valores do Reino de Deus e não tenha
medo de pensar, sonhar, sentir, rir e
chorar. Desejo muito construir minha
espiritualidade sem a canga pesada do
legalismo, sem o hermetismo
fundamentalista dos dogmáticos e sem a
estreiteza ideológica de quem gosta de
rótulos.
Não, não vou deixar de ser pastor, não
abandonarei minha comunidade e nem
desistirei de minha vocação missionária.
Posso não saber ainda para onde vou, mas
estou cada dia mais certo dos caminhos
por onde não devo ir.
Ricardo Gondim
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