Há dois tipos de música:
a boa e a ruim seja ela
erudita, mpb, sertaneja,
reggae, rap, rock ou
gospel. O que me
surpreende é a
capacidade do mercado
absorver música ruim.
Com a proliferação de
compositores,
interpretes, bandas e
gravadoras o cenário
evangélico não poderia
ser diferente. Tem
música boa, mas também
tem muita música ruim.
Passamos séculos
louvando a Deus com
hinos históricos da
Reforma, bastava um
hinário, e tínhamos uma
música com letras
densas, boa teologia, e
linha melódica e métrica
harmoniosa.
Nos últimos anos surgiu
o que chamamos de
louvorzão, jogamos fora
os hinários, a liturgia,
aposentamos o piano e o
coral e introduzimos a
guitarra, a bateria, o
data-show, as
coreografias e a
aeróbica. Surgiu também
a figura do dirigente do
louvor, responsável para
animar a congregação.
Daí para frente têm
muito barulho, muitas
palmas, muitas mãos
levantadas, muitos
abraços, muitas caretas
e cenho franzido. Mas a
pergunta que fica é:
temos adoração?
O lado positivo do
louvorzão é o interesse
e a integração na igreja
de milhares de jovens
que, atraídos pelas
bandas e pela euforia
dos cultos, enchem os
templos. Trata-se de uma
oportunidade única para
ensinar estes jovens,
através do exemplo e da
Palavra o caminho do
discipulado de Cristo.
Mas fica a pergunta:
estarão estes jovens
crescendo na santidade e
no serviço?
Alguns cultos se
tornaram verdadeiras
produções dignas da
Broadway. Músicos
profissionais, cenários,
bailarinos, iluminação
chegam a rivalizar com
os shows de artistas
conhecidos. A idéia é
que uma produção
caprichada com
interpretes competentes
gera uma verdadeira
adoração. Novamente fica
uma pergunta, toda esta
parafernália cênica tem
levado o povo de Deus a
uma genuína adoração?
A história da Igreja é
rica em manifestações
artísticas. Ao longo do
tempo o louvor foi
expresso através de
várias expressões
musicais. O canto
gregoriano, o barroco,
os hinos da Reforma, o
negro spiritual e os
cânticos contemporâneos
deixaram sua
contribuição à boa
música ao longo destes
últimos séculos.
Trata-se, portanto, de
um equivoco jogar fora
toda a herança histórica
e achar que esta geração
descobriu a forma certa
de louvar. Se olharmos
do ponto de vista
musical veremos que a
história nos legou uma
herança preciosa. Na
cultura gospel do
louvorzão tem muita
música ruim, muita letra
questionável, e muito
dirigente de louvor que
mais parece um animador
de auditório.
A igreja pode ser a
ponte entre as gerações,
entre o antigo e o novo
e integrar na adoração
tudo que há de bom na
sua herança histórica.
Tem muita gente já
cansada do louvorzão
barulhento de letras
rasas, de bandas que
tocam no último volume,
das coreografias
esvoaçantes e das ordens
do dirigente para
abraçar o irmão da
frente, de trás e do
lado dizendo que o
amamos. É constrangedor
abraçar alguém e dizer
que o amamos quando
sequer o conhecemos.
A igreja perde quando o
dirigente do louvor, o
data-show, a coreografia
e os solos de guitarra
se tornaram mais
importantes do que o
cântico congregacional.
Ou seja, quando a ênfase
do louvor se desloca da
congregação para o
palco. Com raras
exceções a música é
ruim, a letra não tem
nada a ver com a
realidade do cotidiano
ou a teologia reformada
e a performance no palco
é apelativa.
A igreja perde quando se
torna parecida com um
programa de auditório e
não cultiva mais a boa
música com cordas,
sopros, bons arranjos,
corais, quartetos. Mas a
igreja perde muito mais
ainda quando a adoração
se torna um evento
estimulado
sensorialmente e não uma
melodia que emerge de um
coração quebrantado e
temente a Deus. Adoração
é sempre uma resposta
humilde, alegre,
reverente àquilo que
Deus é e faz. Adoramos
porque algo aconteceu,
algo nos foi revelado, e
não o contrário como
pensam alguns: que é
porque adoramos que
recebemos a revelação e
as coisas acontecem.
A igreja perde quando
não há reverência ou
temor, o que resta é
euforia, excitação e
sensações prazerosas. O
que é bom em si mesmo,
mas não é
necessariamente
adoração.
É um equivoco pensar que
Deus se impressiona com
nossos cultos de
domingo. Ao contrário,
Ele acolhe muito mais
nossos gestos simples do
quotidiano, frutos de um
coração humilde e
quebrantado, que busca
se desprender de
ambições e serve ao
próximo com alegria.
Adoração não é um evento
domingueiro bem
produzido, mas um estilo
de vida que glorifica ao
Senhor.
Durante séculos a
arquitetura das igrejas
e das catedrais destinou
o balcão posterior para
o coro, o órgão e a
orquestra. Na igreja da
Reforma os músicos e o
coro se posicionavam na
parte da frente da nave,
mas sempre ao lado.
Mesmo o púlpito não
estava no centro, mas ao
lado. No centro havia,
quando muito, alguns
símbolos da fé que
ajudam a despertar a
consciência para a
experiência do sagrado,
com destaque para a mesa
do Senhor. Era a
congregação face ao
altar de Deus, nada se
interpondo entre a Santa
Presença e a
congregação. Este lugar
só pode ser ocupado por
Jesus Cristo, ele é o
único mediador, ele é o
único que pode dirigir o
louvor.
Hoje o que se vê é o
apóstolo, o bispo, o
pastor, o dirigente de
louvor e a banda
ocupando este lugar, nos
levando de volta à
Antiga Aliança quando
sacerdotes e levitas
eram mediadores entre
Deus e os homens. A
conseqüência é uma
geração de crentes que
dependem de homens,
coreografias e
data-shows para adorar e
para ouvir a voz de
Deus.
O verdadeiro pastoreio
consiste em ajudar
homens e mulheres a
dependerem do Espírito
Santo para seguirem a
Cristo que os leva ao
seio do Pai. Ajudar
homens e mulheres a
crescerem e amadurecerem
na fé, na esperança e no
amor, integrando
adoração, oração e
leitura das Escrituras
no seu quotidiano.
A contextualização se
tornou uma armadilha na
qual a igreja caiu, na
sua tentativa de se
identificar com o mundo
ela ficou cada vez mais
parecida com mundo. A
cultura gospel é auto
centrada, materialista,
se acha dona da verdade,
tornou-se uma religião
que nos faz prosperar,
que não nos pede para
renunciar a nada e que
resolve todos nossos
problemas. Há um abismo
colossal entre a cultura
gospel e o Evangelho de
Jesus Cristo, que nos
chama a amar
sacrificialmente o nosso
próximo, a cultivar um
estilo de vida simples,
a integrar o sofrimento
na experiência
existencial e a ter a
humildade de ser um
eterno aprendiz.
Estas reflexões já
estavam fervilhando no
meu coração há algum
tempo. Pensei que estas
coisas só aconteciam em
certas igrejas, mas o
que me motivou mesmo a
colocá-las no papel, foi
ter participado de um
culto numa igreja
Batista da Convenção.