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A
missão integral
29/8/2006
A proposta da missão integral como
agenda ministerial para a Igreja é mais
do que evangelismo pessoal e assistência
social; é convocação para rendição ao
senhorio de Cristo, para perdão dos
pecados e recebimento do dom do Espírito
Santo
A Teologia Evangelical – Missão
integral, a partir de seu lema “O
Evangelho todo, para o homem todo, para
todos os homens”, definido no Congresso
Internacional de Evangelização,
realizado em 1974, em Lausanne, na
Suíça, oferece uma lente através da qual
lemos as Escrituras Sagradas em busca de
referenciais para a presença do cristão
e da comunidade cristã no mundo: “Assim
como o Pai me enviou ao mundo, também eu
vos envio” ( João 17.18; 20.21). Creio
que são pelo menos os referenciais
oferecidos pela teologia da missão
integral: soteriologia, eclesiologia,
missiologia, antropologia e kerigma.
A soteriologia da missão integral é o
domínio de Deus, de direito e de fato,
sobre todo o universo criado, através
daqueles restaurados à imagem de Jesus
Cristo – o primogênito dentre muitos
irmãos. A salvação é o Reino de Deus em
plenitude, onde a vontade do Senhor é
realizada ou concretizada em perfeição.
A redenção pessoal é apenas uma parcela
do que o Novo Testamento chama salvação:
o novo céu e a nova terra.
A eclesiologia da missão integral é o
novo homem coletivo. Deus não está
apenas salvando pessoas; está,
principalmente, restaurando a raça
humana. Estar em Cristo é não apenas ser
nova criatura, mas também e
principalmente ser nova humanidade – não
mais descendência de Adão, mas de
Cristo, o novo homem e homem novo. O
caos do universo é fruto da rebeldia da
raça humana em relação ao Deus criador;
a redenção do universo – fazer convergir
todas as coisas em Cristo – é resultado
da reconciliação da raça humana com
Deus. Deus estava em Cristo
reconciliando consigo a humanidade. No
cristianismo, a salvação é pessoal, a
peregrinação espiritual é comunitária, e
nada, absolutamente nada, é individual.
A Igreja é a unidade dos redimidos que
são transformados de glória em glória
pelo Espírito Santo, até que todos
cheguem juntos à estatura de ser humano
perfeito.
A missiologia da missão integral é a
sinalização histórica do Reino de Deus,
que será consumado na eternidade. A
Igreja, o corpo de Cristo, é o
instrumento prioritário através do qual
Jesus, o cabeça, exerce seu domínio
sobre todas as coisas, no céu, na terra
e debaixo da terra, não apenas neste
século, mas também no vindouro. A missão
da Igreja é manifestar aqui e agora a
maior densidade possível do Reino de
Deus que será consumado ali e além. O
convite ao relacionamento pessoal com
Deus é apenas uma parcela da missão. A
missão integral implica a ação para que
Cristo seja Senhor sobre tudo, todos, em
todas as dimensões da existência humana.
A antropologia da missão integral é a
unidade indivisível do pó da terra com o
fôlego da vida; as dimensões física e
espiritual do ser humano. “Corpo sem
alma é defunto; alma sem corpo é
fantasma”; “Cristo veio não só a alma do
mal salvar, também o corpo ressuscitar”.
A ação missiológica e pastoral da Igreja
afeta a pessoa humana em todas as suas
dimensões: biológica, psicológica,
espiritual e social – a pessoa inteira
em seu contexto, o homem e suas
circunstâncias.
O kerigma, evangelização, na missão
integral é a proclamação de que Jesus
Cristo é o Senhor, seguida da convocação
ao arrependimento e à fé, para acesso ao
Reino de Deus. A oferta de perdão para
os pecados pessoais é o início da
peregrinação espiritual, porta de
entrada para o relacionamento de
submissão radical a Jesus Cristo, a
partir do que a pessoa humana e tudo
quanto ela produz passam a servir aos
interesses do Reino de Deus, existindo e
funcionando em alinhamento ao caráter
perfeito do Senhor.
A proposta da missão integral como
agenda ministerial para a Igreja é mais
do que o mix evangelismo pessoal mais
assistência social (geralmente como isca
ou argumento evengelístico). O
referencial da missão integral para a
presença do cristão e da comunidade
cristã no mundo é mais do que a
construção ou multiplicação de igrejas
locais, para onde os cristãos se retiram
do mundo e passam a exercer funções que
a viabilizam – ela, igreja, instituição
religiosa – como um fim em si mesmo. A
convocação da missão integral é para a
rendição ao senhorio de Jesus Cristo,
para perdão dos pecados e recebimento do
dom do Espírito Santo, a partir do que
se passa a integrar um corpo, o corpo de
Cristo, ambiente para a experimentação
coletiva dos benefícios da cruz. É este
corpo o responsável por transbordar tais
benefícios ao mundo, como anúncio
profético do novo céu e da nova terra. O
caminho missiológico e pastoral da
missão integral é afetivo – relacional,
em detrimento de metodológico –;
operacional; comunitário, em detrimento
de institucional; devocional, em
detrimento de gerencial.
Sob o imperativo de levar o evangelho
todo para o homem todo, para todos os
homens, de acordo com o consenso de
Lausanne, a Igreja é a comunidade da
graça. Comunidade terapêutica; agência
de transformação social; sinal histórico
do Reino de Deus, instrumentalizada pelo
Espírito Santo, enquanto serve
incondicionalmente a Jesus Cristo, Rei
dos reis, Senhor dos senhores, a quem
seja glória eternamente, amém.
Ed
René Kivitz
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