|
|
O martírio não
está fora de moda
Fonte: Ultimato |
 |
Não
é pessimismo, manipulação ou
masoquismo, mas o martírio faz
parte do preço a ser pago por
confessar a Jesus como Salvador
e segui-lo como Senhor. Os
apóstolos, milhares de fiéis e
as primeiras gerações de bispos
foram trucidados pelos leões e
gladiadores sob os imperadores
romanos. Ao longo dos séculos,
prisões, exílio, tortura,
execuções e discriminações foram
realidades cotidianas, inclusive
na expansão missionária. Alguns
fraquejaram e abjuraram, mas a
maioria permaneceu firme. “O
sangue dos mártires é a semente
da fé”, já se afirmou. Do século
20, nos resta a memória dos
mártires sob as ditaduras do
nazismo e do comunismo. Hoje, é
grande o número de cristãos
perseguidos em vários países. O
nacionalismo e o fanatismo
religioso em países de religiões
não-cristãs oficiais ou
oficiosas é um fato crescente:
hinduísta, budista e,
especialmente, islâmica. Em
grande parte do globo, não se
conhece o conceito de separação
entre religião e Estado, ou de
liberdade religiosa. Oficial ou
oficiosamente, se vive sob
teocracias. Quando muito, se usa
o conceito de tolerância
religiosa para aqueles que não
integram a religião hegemônica,
destinados a serem cidadãos de
segunda classe ou privados da
plenitude dos seus direitos.
No passado, a Igreja também
conheceu formas teocráticas
opressivas, seja no modelo de
cristandade do Sacro Império
Germânico-Romano, no Ocidente,
com a tutela papal, a Inquisição
e as excomunhões, seja no
césaro-papismo das Igrejas do
Oriente, com a tutela do Estado
sobre a Igreja, que hoje,
infelizmente, depois da queda do
comunismo, é revivida em alguns
países. Um terceiro modelo foram
os Estados nacionais com
religião oficial — católica ou
protestante — consolidados no
Ocidente a partir da Idade
Moderna, com perseguição de
cristãos contra cristãos.
Consideramos que a teocracia de
Israel foi algo específico,
especialmente pelo sistema de
restrições mútuas entre reis,
sacerdotes e profetas, e é algo
encerrado com a Primeira
Aliança, conquanto que o Estado
de Israel (que nada tem a ver
com o Israel bíblico) seja um
espaço de restrições à liberdade
religiosa. Cremos que a
Providência Divina, bem como o
pensamento e a ação dos setores
mais lúcidos da Igreja, são em
muito responsáveis pela
consolidação do Estado laico,
pela separação entre Igreja e
Estado e pelo direito
constitucional de liberdade
religiosa. Foi com o fim do
Estado Confessional da Colônia e
do Império, e com o Estado laico
da Constituição Federal de 1889
que nós protestantes (e as
outras minorias religiosas)
adquirimos cidadania plena no
Brasil.
O Estado laico está hoje sendo
deformado em seu entendimento
pela ideologia do secularismo —
parte da cultura pós-moderna —,
que começa, concretamente, a ser
fonte de perseguição à Igreja no
Ocidente ex-cristão. O Estado
laico deve ser uma realidade
constitucional de não-religião
oficial, de igualdade perante a
lei, de liberdades civis, que
não atentem “contra a ordem
pública e os bons costumes”.
Isso não quer dizer que as
instituições religiosas não
possam ter o seu papel político
e cultural, ou que os fiéis,
como cidadãos individuais e em
entidades não-governamentais,
não possam expressar o seu
pensamento e tomar decisões a
partir da sua fé e da sua
reflexão teológica,
especialmente no campo dos
valores, em que a busca do bem
comum transcende o espaço de
cada um. O Estado secularista
(mesmo que use a terminologia de
“laico”) é um fato novo
preocupante. Há uma hostilidade
contra as religiões organizadas,
notadamente as monoteístas de
revelação, em particular o
cristianismo. A fé é entendida
como algo radicalmente
individual e subjetivo, e as
religiões são confinadas à
esfera privada, proibidas de
opinar ou de agir na esfera
pública de modo coerente com seu
conteúdo. É um humanismo
centrado na autonomia e no
orgulho do ser humano,
totalitário e intolerante. Novas
leis e projetos de lei, na
Europa Ocidental e nos Estados
Unidos, procuram abolir os
símbolos e extinguir as datas
religiosas, introduzem a união
civil entre pessoas do mesmo
sexo, inclusive com
possibilidade de adoção, e o
aborto indiscriminado, sob o
discurso dos “direitos humanos”,
ou do “politicamente correto”.
No Brasil, temos projeto de Lei
que prevê prisão para quem
expressar divergência em relação
à “normalidade” do
homossexualismo.
Diante do fanatismo religioso
teocrático e do pseudo-laicismo
secularista, a Igreja ainda não
acordou para um novo período de
perseguição religiosa que se
avizinha. Na teologia da
prosperidade não há lugar para
martírio. Alguns convivem com
uma tentação teocrática
protestante, resultado do
crescimento evangélico na
América Latina. Estamos
fragilizados, porque
entristecemos o Espírito Santo,
pecando contra a verdade, com as
heresias, contra a unidade, com
o divisionismo, e contra a
santidade, com os trambiques de
todo tipo. Carecemos de tomada
de consciência, de
arrependimento e do exercício
responsável da cidadania, como
sal e luz, pagando o preço do
discipulado.
• Dom Robinson
Cavalcanti é bispo
anglicano da Diocese do Recife e
autor de, entre outros,
Cristianismo e Política – teoria
bíblica e prática histórica
e
A Igreja,
o País e o Mundo – desafios a
uma fé engajada.
www.dar.org.br
|
|
início
índice de notícias

|
|